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TENHO VERGONHA DE NUNCA TER VOTADO

Durante anos, o menino loiro que simbolizou o fim da ditadura pensava que a revolução não tinha sido coisa boa. Envergonhava-se daquela imagem espalhada pelas ruas, ele a colocar o cravo numa espingarda. Hoje vive longe dessas memórias, emigrado numa Londres onde o 25 de Abril não existe.
25.04.04
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Há 30 anos foi o menino de caracóis loiros, cuja figura reguila se esticava para colocar o cravo numa espingarda de Abril. A fotografia tornou-se o símbolo da revolução, mas o miúdo de roupa esfarrapada, descalço, fotografado por Sérgio Guimarães saiu de Portugal mal atingiu a maioridade. Foi estudar em Londres e apaixonou-se por uma inglesa. Trabalha lá e espera o primeiro filho, que nasce no início de Maio.
Diogo Bandeira Freire, o menino da revolução, tem 33 anos, vive numa casa de tijolos vermelhos com um jardim, na margem Sul do Tamisa. Vive a vida à inglesa: deixa o Audi A3 estacionado à porta, para não ter de pagar cinco libras de portagem para entrar no centro da cidade e vai de transportes públicos para o emprego. Leva numa lancheira o que comerá ao almoço. E trabalha como ‘financial controler’ sete hora e meia por dia numa empresa de tecnologia.
Lembra-se de alguma coisa da sessão fotográfica em 1974?
Tinha três anos, por isso as minhas memórias são escassas. Lembro-me vagamente de uma sala bastante escura. A primeira memória que tenho do ‘poster’ é olhá-lo pendurado na rua ao pé da casa dos meus pais e pensar: o rapaz que ali está, sou eu.
Quando cresceu associava o momento a uma alguma coisa especial?
Não. Tentava não falar muito do assunto.
Porquê?
Durante algum tempo houve polémicas em relação ao 25 de Abril, muito por causa daquilo que aconteceu a seguir. Em criança, a minha sensação era que a revolução não tinha sido uma coisa boa. Quando aos 15 anos recebi um convite para dar uma entrevista, é que percebi que teria de haver alguma coisa de especial naquilo.
Mas na escola falaram-lhe do 25 de Abril e da revolução…
Sim, mas nunca disse nada sobre a fotografia. E mesmo a seguir a dar a entrevista, ninguém me fez perguntas. Não sei porquê. Eu nunca disse, nem nunca ninguém me perguntou absolutamente nada.
Aborrecia-o que lhe pedissem entrevistas ou que lhe falassem sobre o assunto?
Sim. Não percebia muito bem qual era o fascínio. Não escolhi fazer a fotografia; fui eu como podia ser outro qualquer.
Quando hoje olha para o retrato do miúdo loiro que põe o cravo no cano da espingarda, o que pensa?
Olha, lá estou eu! Nos últimos anos, alguns amigos vêem o ‘poster’ e acham muita piada. Para a minha mulher, que é inglesa, é um espectáculo que eu seja o miúdo da fotografia. Ela está a aprender português e vai fazer um projecto sobre o 25 de Abril –penso que é para mostrar o marido. Na verdade, a razão de eu não querer dar entrevistas é que saí de Portugal aos 18 anos.
E não tem muita noção da realidade do país.
Não, não é propriamente isso. É um bocado irónico que o miúdo, o símbolo de Abril, tenha saído do país.
E porque é que o símbolo de Abril saiu do país?
Para fazer gestão de empresas numa universidade no Norte de Inglaterra. Os cursos eram melhores e duravam só três anos, ao passo que em Portugal são cinco. Porque é que para ser médico se leva seis anos e para se ser gestor cinco? Não tem muita lógica. Não percebo porque é que os cursos em Portugal têm de ter todos pelo menos cinco anos! Em Inglaterra fiz dois anos e depois fui um ano para o Brasil e voltei para terminar a formação. Acabei por ficar.
Porquê?
Posso dar imensas desculpas mas na verdade fiquei em Inglaterra porque conheci a minha mulher, Kerry, no último ano da universidade.
Já tentou voltar?
Há dois anos quando acabei uma especialização, eu e a minha mulher achámos que poderíamos viver em Portugal. Os meus amigos deram-me uma lista das empresas de recrutamento portuguesas e enviei currículos. Cheguei a ir de propósito a Portugal para tentar arranjar um emprego porque não queria voltar sem trabalho.
E o que é que aconteceu?
Nunca recebi oferta de emprego, nem uma carta, absolutamente nada.
Nada?...
Nada. O problema é que só queria trabalhar numa empresa internacional porque se a experiência em Portugal não desse certo, poderia regressar a Inglaterra e manter o emprego. Foi por isso que não tive ofertas de emprego. O leque de opções era curto.
Porque havia poucas empresas internacionais em Portugal…
Fiquei espantado! Arranjei uma lista das 100 maiores europeias e depois escolhi aquelas onde gostaria mais de trabalhar. Das 30 que escolhi, 25 não tinham sucursal em Lisboa. Depois porque trabalho em contabilidade e finanças e a maior parte das empresas internacionais têm esta área sedeada em Madrid ou Londres.
O que o levou a querer voltar?
Nunca pensei que quando ia, era para a vida. Tenho saudades do país e dos meus pais. Estou aqui há 15 anos mas as saudades de Portugal permanecem.
Sente saudades de quê?
Da família, é óbvio. Depois do tempo, da comida, de ouvir falar português. É difícil explicar. Acho que as saudades são comuns a todas as pessoas que emigram. Elas estão lá, e com os anos não diminuem. Fiquei muito abalado por não ter conseguido emprego. Se calhar, foi arrogância minha presumir que, por ter estudos e experiência profissional em Inglaterra, seria fácil arranjar emprego em Portugal.
Tem uma imagem precisa de Portugal?
Devo dizer que tenho imensos complexos de culpa por não me esforçar mais a acompanhar o que se passa no meu país. Vou a Portugal quatro ou cinco vezes por ano e então tento pôr-me ao corrente. Noto que tem mudado imenso e para melhor. Embora o meu pai se farte de barafustar e mandar-me 'e-mails' com notícias comentadas pela negativa. Mas, mantenho, mudou muita coisa desde que saí.
Em que aspecto?
Lisboa está mais cuidada e é como outra capital europeia. A única coisa que parece não estar melhor – pelo menos assim o dizem – é o mercado de trabalho. Sei de várias pessoas que perderam o emprego.
O que o impressiona mais na actualidade portuguesa?
O número de estádios construídos para o Euro2004. Fiquei pasmado! Não sei bem quanto é que o Estado pagou ou se pagou tudo, mas acho incrível. Eram precisos tantos estádios?! Depois, é claro, os casos da pedofilia.
E os ingleses? O que pensam eles de nós?
Acham que os portugueses são extremamente amáveis. Em Londres, o país está na moda. Em qualquer concurso radiofónico, o prémio é uma viagem a Portugal. Os restaurantes portugueses estão cheios. Ir a Portugal Road, ao mercado, é moda. E o filme 'Love Actually' ('Amor Acontece') foi extremamente popular.
Mas esse filme dá uma imagem muito estranha dos portugueses…
Não sei se os portugueses ficaram ofendidos, mas a verdade é que ajudou a despertar o interesse pelo país. O curso de português que a minha mulher frequenta tem 12 pessoas; dessas só duas estão casadas com portugueses. O resto está a estudar porque quer conhecer a língua ou ir viver para Portugal.
Acompanha a situação política inglesa?
Sim. Apesar de todas as polémicas, acho que o Blair está para ficar.
Se pudesse, votaria nele?
Votaria porque não há alternativa. A participação na guerra do Iraque não é aquilo que vai fazer as pessoas votarem ou não em Blair.
A intervenção no Iraque é positiva?
Percebo porque é que as pessoas estão contra. Há outros ditadores e outros problemas no mundo, porquê o Iraque? A questão é que as sanções das Nações Unidas não eram contra o Saddam, nem a família dele, mas contra a população. Se nós achamos que temos o direito de impor aquelas sanções, qual é a diferença? Por isso tenho uma certa dificuldade em dizer que a guerra foi péssima.
Então a guerra foi um mal menor?
Fico sempre a pensar que talvez pudesse ter sido resolvido de outra forma.
Em Portugal, qual é o seu sentido de voto?
Tenho de me esforçar para saber mais sobre política portuguesa. Não sei o suficiente para votar em consciência.
E já votou alguma vez?
Não.
Acha que a política é uma coisa colateral na vida das pessoas?
Não, não acho. Porque é que eu nunca votei? Essa era uma das perguntas que tinha medo que me fizesse. Tenho imensa vergonha de nunca ter votado.
Porquê?
É uma responsabilidade, um dever enquanto cidadão. E é por isso que tenho vergonha, se toda a gente tivesse uma atitude apática destas não haveria democracia.
“25 de Abril, sempre.” O que significa para si?
Nunca pensei nisso, mas se o 25 de Abril representa democracia, liberdade e a consciencialização das pessoas sobre deveres, como o de votarem, a frase é válida.
Mas já a tinha ouvido?
Já, mas nunca tinha pensado sobre ela. Há milhentas maneiras de interpretá-la: se significa nacionalizar todas as indústrias, tirar os bens às pessoas: não muito obrigado. O 25 de Abril, de certa forma, também tem duas faces.

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