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“Tínhamos sempre à mão a velhinha arma Mauser"

No Mundial de Futebol íamos seguindo os jogos pelos rádios portáteis, quase esquecendo o ambiente perigoso que nos rodeava.
11.02.18
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Chegada a Luanda em fins de Agosto de 1965, a Companhia de Engenharia 1448 foi enviada para Santa Eulália, sendo ali dividida em equipas de trabalho e dispersa pelos Dembos, cabendo ao meu grupo (equipa C) a beneficiação da picada entre Balacende e as fazendas Margarido e Maria Fernanda. Estávamos em região com historial de atividade da guerrilha, com destaque para os troços Caxito-Quicabo-Balacende, que percorríamos com frequência para reabastecimento de combustível e que incluía as famosas sete curvas onde os ‘turras’ seriam particularmente ativos. Mas também de panoramas soberbos, como os morros ‘Palacaça’ - dois impressionantes monólitos calcários sobranceiros ao rio Lifune e a uma pequena fazenda abandonada desde 1961 e que dominam a paisagem até bem longe. De um deles, até à pedrada nos podiam atingir, mas passámos incólumes. Posteriormente houve combates em vários locais do trajeto.

Seguiram-se outros itinerários, com as respetivas pontes e aquedutos em várias zonas de movimentação operacional noutros setores do norte, numa vivência de nómadas forçados, em condições de total desconforto e perigosidade latente própria de um ambiente hostil em todos os aspetos. Mas guerra é guerra, e se nenhuma é boa, a da engenharia era assim mesmo! Como a melhoria ou construção de vias de comunicação em qualquer conflito é uma vocação básica da engenharia militar e fazendo jus à mobilidade que proporcionávamos, íamos mudando o local de acampamento conforme a intervenção nas picadas ia avançando. O que se tornava terrível na época das chuvas!

Embora isso não nos livrasse de ser atacados ou armadilhados, tínhamos sempre proteção e apoio logístico por parte da unidade das forças de quadrícula mais próxima à qual éramos agregados porque, ou devíamos trabalhar, ou cuidar da nossa segurança, o que tornaria impossível o cumprimento de qualquer missão que nos fosse atribuída. No entanto, tínhamos sempre à mão a velhinha arma Mauser, inadequada para aquele clima e tipo de hostilidade. Mas não havia outras e o funcionamento de todas as unidades como a minha era baseado nesse esquema.

Não posso deixar de referir - no bom sentido - o Mundial de Futebol de 1966 em Inglaterra estando parte da companhia em plena operação ‘Quissonde’, à qual foi atribuído pelo quartel-general, à boa maneira castrense, o lema medalhado "O medo é por lembrança"! Naturalmente, íamos seguindo os jogos pelos rádios portáteis e festejávamos as vitórias da nossa seleção, quase esquecendo o ambiente perigoso que nos rodeava.

Julgamento da História

Pode parecer um retrato simpático do tremendo cenário operacional de destruição em que estávamos envolvidos e desajustado do contexto evocativo de muitas recordações aqui publicadas, mas é o exemplo de como aliviávamos a tensão permanente quando era possível. O que não obstou, infelizmente, que anos mais tarde, alguns mais frágeis se viessem a ressentir das situações por que passaram. Posso dizer, sem constrangimento ou vaidade, que fiz a guerra sem ter trocado tiros com o inimigo e que aqueles dois anos foram dos mais marcantes da minha vida. Tanto pela saudade da família, como pelo desgaste do dia a dia de longos períodos de acampamento em pequenas tendas de lona no meio do capim, sentindo falta de tudo. E também pelo facto de ir assumindo a injustiça que representava a violência usada para se tentar evitar a liberdade de um povo.

Desejando que a História julgue com imparcialidade o que foram 14 anos de sacrifício da juventude portuguesa resta-me a ideia, como de consolo justificativo, de que a maioria das obras que ajudei a construir sejam agora e ainda, utilizadas para o progresso daquela nação!

Depoimento de: 
Celerino Dias

Comissão
 Angola (1965-1967)

Força 
Companhia de engenharia 1448

+ Info 
Aos 75 anos está reformado. tem dois filhos e três netos. vive em viana do castelo





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