Uma profissão de desgaste muitíssimo rápido

A maldição dos cozinheiros, de meia-idade, que o suicídio de Anthony Bourdain trouxe a lume
Por Miguel Balança e Fernanda Cachão|17.06.18
  • partilhe
  • 0
  • +

Afinal, temperava a vida a contragosto. A notícia foi servida ainda quente e com a crueza que apreciava apenas nas palavras: "Anthony Bourdain morto aos 61 anos", titulava a CNN em primeira mão. Sem reservas, o chef contador de histórias antecipava, para lugar nenhum, a derradeira etapa de uma jornada de divulgação gastronómica que sempre que lhe apetecia fazia "vaguear para fora da mesa".

Galático na fama, a que chegou através dos livros, interestelar no palmarés, porque nunca figurou no mais importante guia culinário do mundo, arrogava a si o desígnio de provar que a alta cozinha pode estar em qualquer lado. "Quando estava no espaço via os seus programas porque me faziam sentir ligado ao planeta, às suas gentes e às suas culturas, transformando o meu tempo em algo mais saboroso", recordou o astronauta Scott Kelly.

Sem pejo de dizer o que pensava, viveu com o mesmo deboche por entre chefs e cozinheiros de quem ignorava o estatuto. Fazia questão de não negligenciar os preparados mais modestos – ‘in loco’, inaugurou um estilo de relatar os sabores do mundo que fez escola. Foi Eric Ripert, melhor amigo e também chef, que se deparou com Bourdain inconsciente num quarto de hotel em Estrasburgo (França) onde rodava, para a CNN, mais um episódio de ‘Parts Unknown’. Fiel a um estilo só dele, conciliava histórias ignoradas de lugares inóspitos, com o recontar acutilante de narrativas mais batidas, de locais conhecidos. Nunca fez do sofrimento coisa privada. Aliás, começou por aí. Em abril de 1999, escreveu ‘Não coma antes de ler isto’, para a revista ‘The New Yorker’. Começava o manifesto: "A boa comida, como a boa culinária, é sobre sangue e órgãos, crueldade e apodrecimento." Preludiava ‘Cozinha Confidencial’ (ed. Livros d’Hoje, 2011), a obra que se seguiria e que o faria, pela mão do público, estrelar. O título mescla memórias profissionais com o relato de um estilo de vida ‘à la rock star’, detalhado com o pormenor de quem enuncia a receita para atingir um "buraco fundo e escuro", de onde se dizia erguido. Conta vinte anos de "sexo, drogas, mau comportamento e grande cozinha". Juiz em causa própria, não se considerava "lá grande cozinheiro". Em 2002, conquista Portugal a norte, pelo Porto, para ‘A Cook’s Tour’ com tudo o que é comida da Invicta e Celorico. Trouxera-o José Meirelles, o português que o contratara para a cozinha do restaurante Les Halles, em Nova Iorque. Por estes dias, a fachada da ‘home base’ de Bourdain – hoje, casa falida – vê-se transformada em memorial a recordar a partida. Em 2009, leva a série televisiva ‘No reservations’ aos Açores onde, ao vapor da vulcânica São Miguel, assistiu à feitura do cozido das Furnas. Em 2011, jogou à malha com Ljubomir Stanisic, no Grupo Sport Chinquilho Junqueirense e Giestal, no bairro lisboeta da Ajuda. Em 2017, na Invicta, passou pel’O Afonso onde comeu francesinha e perguntou o seu segredo. "Qual é o índice ‘per capita’ de doenças cardíacas neste país? Só por curiosidade", brincou depois.

pub

pub

Ver todos os comentários
Para comentar tem de ser utilizador registado, se já é faça
Caso ainda não o seja, clique no link e registe-se em 30 segundos. Participe, a sua opinião é importante!