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Uma vida privada levada à extrema direita

Ainda que não chegue ao Eliseu, aos 48 anos nunca esteve tão próxima. Marine Le Pen, a mulher que afastou o pai e cortou com a mãe
Por Fernanda Cachão|16.04.17
Uma vida privada levada à extrema direita

Marine casou-se aos 29 anos com Franck Chauffroy, um empresário conotado com a extrema-direita francesa que num ano a fez mãe de três, contou em fevereiro à ‘Paris Match’ a líder da Frente Nacional (FN), num dos raros momentos em que falou sobre a sua vida privada. Jehanne tem 19 anos e os gémeos Louis e Mathilde 18, e as gravidezes sucessivas foram tema da historieta contada em tom de anedota talvez porque na reta final da campanha que a pode levar ao Eliseu a regra de sempre faz de facto a exceção. O casamento celebrado em 1997 terminou em divórcio em 2000 e Marine voltou a casar-se com Éric Iorio, um antigo secretário-geral da Frente Nacional, fundada pelo pai dela, Jean Marie Le Pen em 1972, com o intuito de unificar as correntes nacionalistas da época, e por ela herdada, depois de eleições internas, em 2011. Um partido de extrema-direita, com ligações a grupos neonazis, que a liderança de Marine lava mais branco e com sucesso, pois as sondagens das últimas semanas mostram Emmanuel Macron, o ex-ministro socialista que fundou há um ano o movimento ‘Em Marcha!’, e Marine Le Pen com vantagem sobre os restantes candidatos às eleições em França do próximo domingo. Marine nasceu dois meses depois do Maio de 1968, quatro anos antes da fundação da Frente Nacional. A ligação daquela que corre agora ao Eliseu com o segundo marido Éric Iorio, que foi diretor do departamento de Estatísticas e Cartografia da Frente Nacional, durou menos de cinco anos. Na impressa francesa escreveu-se que Marine Le Pen estava em "liberdade sentimental", consagrada à causa política. "A vida política é incompatível com a vida em família", disse à ‘Closer’ em 2012.

O período de nojo amoroso acabou nos braços de Louis Alliot, outro próximo do patriarca Le Pen e vice-presidente da FN. Pouco depois de se terem assumido como casal, assumiram a vida em casas separadas. Marine ocupa uma enorme casa familiar herdada pelo seu pai a meio dia de viagem da casa de Louis - a relação, embora tornada pública, raramente é vista em público. Marine, que pratica tiro ao alvo e é como todos os membros da família fã de râguebi - a filha gémea é capitã de equipa no colégio privado onde estudam os três irmãos - dificilmente é apanhada em falso por um fotógrafo.  

Uma espécie de telenovela

Yann Le Pen, a irmã de Marine, disse à ‘Vannity Fair’ que já se interrogou por que razão Jean Marie Le Pen resolveu ter filhos. As três filhas Le Pen são de mães diferentes. No caso da candidata ao Eliseu, a mãe, Pierrette, fugiu com um jornalista e depois posou nua para a ‘Playboy’, para "se vingar de Jean Marie a ter arrastado para a sarjeta pública", como teve ocasião de explicar diversas vezes. Durante 15 anos, o ex-casal nunca se falou. Marine tinha 17 anos e entrou em depressão, e durante uma década evitou a mãe. A figura impopular do pai obrigou a que Marine tivesse tido uma infância fora do comum - como daquela vez em que faltou um mês à escola quando os Le Pen e amigos procuraram o Sul de França durante um mês para escapar a ameaças de morte. Até que numa noite de novembro de 1976, o apartamento da família foi alvo de um atentado - vinte quilos de explosivos erraram toda a família.

Foi em agosto do ano passado, que a advogada Marine - fez exame à Ordem em 1997, ficando a trabalhar no departamento legal do partido - terá ajudado a FN a expulsar o fundador, agora com 88 anos, por este negar o extermínio de judeus pelo regime nazi. Nos últimos anos, Marine purgou o partido de históricos fascistas, correu com skinheads e promoveu jovens tecnocratas para posições de liderança, escreveu a ‘Atlantic’.

A mais nova de Le Pen não fala com a irmã Marie-Caroline, por esta ter apoiado uma fação dissidente da FN, e afastou-se do pai por causa das suas opiniões controversas que prejudicam a ambição política. Cortou também com a filha de Yann porque a sobrinha, Marion Maréchal-Le Pen, de 22 anos, a mais jovem deputada eleita em França, discordou da tia sobre a questão do aborto.

O destino do gato de Marine Le Pen, ‘Artémis’, é um símbolo das relações entre os Le Pen. Em setembro de 2014, três anos depois de Marine suceder ao pai, e afastar-se das suas posições, ‘Sargento’ e ‘Major’ aliviaram a azia de Jean Marie. ‘Artémis’ sucumbiu, entre as mandíbulas dos cães do líder histórico no jardim da luxuosa residência familiar, em Montretout, nos arredores de Paris.

Depois do Parlamento Europeu, onde é deputada, ter ordenado a devolução de 300 mil euros, relativos ao falso emprego de uma amiga, o ‘Vel’ d’Hiver’, como ficou conhecida a operação de Berlim no Velódromo de Inverno de Paris, onde a polícia francesa de Vichy juntou em dois dias de 1942 treze mil judeus franceses, depois enviados para os campos da morte, é a mais recente polémica que a envolve. A líder da FN negou ao ‘Le Figaro’ e às televisões RTL e LCI a responsabilidade do Estado francês, embora em 1995, Chirac tenha pedido desculpa e, em 2012, Holand ter assumido que as deportações foram "um crime cometido em França e pela França".

Um fraco por ouro

‘La Face Crashée de Marine Le Pen’, da autoria de Riss, diretor do ‘Charlie Hebdo’, do guionista Richard Malka e do jornalista Said Mahrane, recorda as antigas amizades da candidata com a extrema-direita mais dura, em contraste com as suas posições recentes, mais à esquerda, com o apoio ao casamento homossexual ou a oposição à reforma laboral. O livro, que narra factos já contados em biografias de Jean Marie Le Pen, refere que o patriarca não escondeu a deceção quando a mais nova nasceu e terá escolhido como padrinho um proxeneta de Pigalle. "A irmã Marie Caroline, como irmã mais velha, é que deveria ter sido a sucessora, mas acontece que se casou com um megretista (Bruno Mégret, um dissidente do partido) e foi excomungada pelo pai", disse Richard Malka à rádio France Inter.

A fortuna familiar do clã, construída em meados dos anos 70, continua envolta em mistério. Jean Marie é o filho de remediados que em 1963 pôde abrir uma empresa fonográfica, a Serp, especializada em discos de música e discursos militares, sobretudo em cantos nazis e discursos do marechal Pétain. A situação financeira do pai Le Pen só mudou quando conheceu Hubert Lambert, herdeiro de uma cimenteira e mecenas político, que decidiu fazê-lo seu herdeiro - conta a ‘The Economist’. Herdou, em 1976, um património de 30 milhões de francos e uma mansão em estilo Napoleão III em Saint-Cloud, no Parque de Montretout, arredores de Paris.

Marine Le Pen tem 4,5% do capital da Sociedade Imobiliária (SCI) estimada em sete milhões de euros e ainda é dona de parte de outras sociedades imobiliárias (detinha parte do capital da histórica sede do partido vendida em 2011 por 10 milhões de euros) e 50 % da SCI Palouma, que é proprietária de uma residência em Perpiñán, no Sul de França, comprada a meias com o atual companheiro, Louis Alliot, por 270 000 euros.

O pai de Marine teve dificuldade em explicar a conta na Suíça descoberta em 2015 que tinha 2,2 milhões de euros e 1,7 milhões em lingotes e peças de ouro. O fraco pelo metal amarelo é partilhado pela filha que em 2012 declarou durante a campanha eleitoral possuir milhões de euros em moedas de ouro.

Segundo a ‘People With Money’, Marine integra a lista das mulheres na política que mais ganham. A edição deste mês diz que esta Le Pen amealhou entre maio de 2016 e março de 2017, 96 milhões de euros. A revista calculou os ganhos diretos mas também outros provenientes de publicidade, como aos cosméticos CoverGirl, royalties e outros investimentos, por exemplo em restaurantes, entre os quais os da cadeia ‘Chez la grosse Marine’, de um clube de futebol em Neuilly-sur-Seine, de uma linha de roupa para adolescentes ou de um perfume com o seu nome. A sua fortuna tem o aroma de 275 milhões de euros.

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