Valentino virtual

Al Capone, ausente na Florida para comemorar o dia de São Valentim com as suas amantes, enviou dois gangsters com fardas de polícias e caixas de flores nos braços
Por João Botelho|14.02.16
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Tantas histórias, tantas origens. Na alta Idade Média, 14 de Fevereiro era tido como o primeiro dia do acasalamento dos pássaros, o início da Primavera e a festa em que o Império Romano celebrava a união de Juno, deusa da mulher e do casamento, com Pan o deus da natureza, o dia da passeata da fertilidade em que os sacerdotes zurziam todas as mulheres com correias de couro de cabra para assegurar a fertilidade. A 14 de Fevereiro do ano 273 o bispo Valentino foi preso e torturado na Via Flaminia porque desobedecia às ordens do imperador Claúdio II. Este achava, que os soldados solteiros eram muito melhor combatentes que os casados e proibiu todos os casamentos. Valentino continuava a celebrá-los. Para o cárcere, muitos e muitas lhe enviaram flores e bilhetes como prova de que o amor seria sempre mais forte que a morte e a guerra. Na prisão o bispo apaixonou-se pela filha do carcereiro que era cega. Num extraordinário milagre, devolveu-lhe a visão e antes de ser executado deixou-lhe uma mensagem de amor assinada "do seu namorado" ou "do seu Valentim".
Muitos séculos depois, em 1840 uma americana de nome Esther fez uma fortuna ao imprimir e vender cartões do Dia dos Namorados, inaugurando o ritual contemporâneo. A tradição anglo-saxónica estendeu-se para todo o mundo e também para cá. Nós portugueses adoramos efemérides e festas. Amor e sangue. A 14 de Fevereiro de 1929, no tempo da Lei Seca, Al Capone, ausente na Florida para comemorar o dia de São Valentim com as suas amantes, enviou dois gangsters com fardas de polícias e caixas de flores nos braços, onde não havia rosas mas metralhadoras Thompson, para uma garagem onde foram executados contra uma parede sete supostos membros do gangue do ‘Lado Norte’ de Bugs Morgan, o rival de Capone, que lutava do ‘Lado Sul’ pelo controlo de Chicago. Uma vítima agonizante com 14 balázios no corpo disse: "Eu não vou falar, ninguém me baleou". Os cartões, as rosas, o papel de prata que envolve os corações de chocolate e o sangue. Tudo vermelho mas tudo a desaparecer. Hoje não há mais pele. Pouca ternura e pouco afecto. Não há mais o cheiro de rosas nem o sabor do chocolate, nem o prazer da escrita de palavras amorosas. É o triunfo do individualismo e do onanismo. Tudo se resume a um clique de polegar que reproduz corações vermelhos virtuais nos ecrãs de telemóveis. Um beijo não custa nada!

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