O sono visto como ofensa

O sono surge como o último reduto de humanidade
26.08.18
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Por Adolfo Luxúria Canibal 

Jonathan Crary, em ‘24/7’, começa singelamente por referir que quem tenha alguma vez vivido na Costa Oeste da América do Norte certamente se deu conta das largas centenas de espécies de aves que todos os anos a percorrem na sua migração sazonal para Norte ou para Sul. Depois destaca de entre essas espécies o pardal-de-coroa-–branca, que no Outono migra do Alasca para o Norte do México e na Primavera do México para o Alasca, o qual tem a particularidade de fazer essa migração sem dormir, ficando acordado durante sete dias e sete noites. A seguir informa que este pardal-de-coroa-branca está desde 2008 a ser exaustivamente estudado por várias universidades e cientistas financiados pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, que pretende perceber a sua actividade cerebral durante os longos períodos em que não dorme na esperança de obter conhecimentos que possam aplicar-se aos seres humanos. O intuito é descobrir como podem as pessoas não dormir e, além disso, continuar a funcionar com produtividade e eficiência, uma vez que os meios existentes para produzir ausência de sono, como as anfetaminas, têm sido sempre acompanhados de défices cognitivos e psíquicos nefastos. O objectivo é conseguir o domínio do sono humano. E se por ora o complexo científico-militar apenas pretende soldados com aptidões físicas próximas das de um modelo maquínico, a história mostra que as inovações associadas à guerra acabam sempre assimiladas pela generalidade da esfera social. E o soldado insone não será mais do que o precursor do trabalhador insone ou do consumidor insone, pois os produtos contra o sono, promovidos habilidosamente pelas farmacêuticas, rapidamente se tornarão uma opção de estilo de vida e, finalmente, uma necessidade. A partir daqui Jonathan Crary traça um panorama vertiginoso da contemporaneidade, num ensaio fascinante que, percorrendo a evolução do mundo e dos costumes desde a Revolução Industrial até à era da Internet, identifica o sono como a maior afronta actual ao capitalismo e como o último reduto de humanidade.

Antiga ortografia


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