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Sempre Séneca

‘Cartas a Lucílio’ são um convite para vivermos a vida e, paradoxalmente, para desprezarmos a vida. É um livro a que regresso sempre.
Por João Pereira Coutinho|24.07.16
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Sempre Séneca
Jeremy Irons em 'The Man Who Knew Infinity'
Envelhecemos. Relemos os mesmos livros. Parcialmente, tudo isso é verdade: quando faço a contabilidade dos últimos tempos, vejo que repeti a dose em certos casos. Mas só existe um livro que releio a um ritmo anual. São as ‘Cartas a Lucílio’, de Lúcio Aneu Séneca (4 a.C.? - 65). Já perguntei aos meus neurónios porquê. Eles não souberam responder. Não sou estóico. Pior: sempre considerei o estoicismo uma escola filosófica desumana. Mas as palavras de Séneca atingem- -me com tal força que a única coisa que posso fazer é contemplá-las como o ideal inatingível que são. E de onde vem essa força? Do contraste entre o que ele diz e aquilo em que nos tornámos. Basta ler alguns dos conselhos banais que Séneca envia ao seu discípulo: evita seguir as modas da turba; as deambulações constantes são marca de uma alma doente; não cedas à dispersão. O que diria Séneca da nossa era – uma era que fez do mimetismo pop; do politicamente correcto; da celebração da inconstância; e do ‘multitasking’ (grotesca expressão) a sua melodia essencial? Mas o lado mais perturbante de Séneca está naquela que me parece ser a sua preocupação fundamental: como conservar o controlo da vida quando somos seres temporais por definição, sujeitos à contingência e à mortalidade?
As cartas
Não por acaso, a primeira carta das 124 lida com o tempo. O tempo que nos tomam. O tempo que nos foge. O tempo que desperdiçamos. Penso, logo existo? Naturalmente. Mas existo porque habito o tempo – e o tempo é a única coisa que nos pertence. O que implica a questão seguinte: como habitar virtuosamente esse tempo? A resposta de Séneca é de uma tal brutalidade que não há racionalista moderno que resista: perde a esperança e o medo. No fundo, mutila os dois sentimentos primários da nossa condição – o medo do desconhecido (a velhice, a pobreza, a morte) e a esperança de que o futuro seja a realização do presente que ainda não temos. Teoricamente, é difícil discordar – e uma comparação com a nossa realidade ilustra a sofisticação de Séneca. O homem do século XXI é um ser assustado e ressentido. A intranquilidade da sua alma radica na angústia face ao futuro, um dos motivos pelos quais a saúde se tornou a primeira e a última das nossas preocupações. De igual forma, o ressentimento nasce da consciência da incompletude. Pode ser uma incompletude material – de preferência, quando comparamos o nosso carro com o carro do vizinho; ou uma incompletude simbólica – quando vivemos assombrados pela carreira ou pelo estatuto do mesmo vizinho. Por isso projectamos no futuro – "um dia, quem sabe..." – as esperanças da nossa alma ressentida.
Estas duas atitudes – medo e esperança – são a causa primeira da nossa infelicidade; e da incapacidade de viver o tempo que realmente temos. As cartas de Séneca são um convite para vivermos a vida e, paradoxalmente, desprezarmos a vida. Se o leio é talvez para lhe agradecer o génio. E, depois, para confessar os meus fracassos na qualidade de humano, demasiado humano. 

Editora Gulbenkian
Livro
‘Portugal e o Atlântico’
O Ocidente está em declínio? São incontáveis os tratados (pseudo)filosóficos que já se escreveram sobre o assunto. Karl Popper ensina: fazer previsões sobre o futuro quando desconhecemos as circunstâncias desse futuro é meio caminho andado para o desastre. Bernardo Pires de Lima não cai no erro. Houve uma ascensão brutal da Ásia-Pacífico? Verdade. Mas isso não significa necessariamente o declínio inexorável do Atlântico, a que pertencemos.
Autor Bernardo pires de Lima
Editora FFMS

Filme
‘Amor e Amizade’
Era inevitável que Whit Stillman chegasse a Jane Austen: quem conhece os seus (poucos) filmes anteriores já detecta ali o aroma da erudição e da ironia. Com ‘Amor e Amizade’, Stillman adapta uma novela de Austen (’Lady Susan’) para mostrar aos incréus que as mulheres, em argúcia e perfídia, fazem o que querem do ‘sexo forte’. Homens de todo o mundo, uni-vos!

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