Uma obra-prima visual

A última sequência é o resgate mais perfeito de uma alma que o cinema americano recente nos ofereceu.
Por João Pereira Coutinho|05.08.18
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Uma obra-prima visual
No Coração da Escuridão Foto Direitos Reservados

Será possível que um filme que tem as alterações climáticas como elemento dramático seja o melhor do ano até agora? Em teoria, seria impensável. Na prática, é preciso relembrar que o autor do argumento, que também assina a realização, é Paul Schrader. As alterações climáticas têm aqui o mesmo papel que o proxenetismo no seu ‘Taxi Driver’: um pretexto para a catarse.

E a catarse será de Ernst Toller (admirável Ethan Hawke), pastor de uma pequena igreja do estado de Nova Iorque, que tem várias tragédias para expiar. A primeira é a morte do filho, em combate, depois de Toller o ter incentivado a servir no exército do país. Mas existem outras – da doença que o corrói às angústias próprias da fé – que ele vai registando no seu diário.

Esta existência fúnebre será fortemente abalada no momento em que Toller conhece Mary (Amanda Seyfried). Mary está grávida e o marido, Michael (Philip Ettinger), quer que ela aborte. Para quê trazer mais uma criança para este mundo? Sobretudo quando o mundo se transformou na lixeira da grande indústria e a humanidade está condenada a prazo?

Mary não está convencida; e quer que Toller converse com o relutante Michael, devolvendo-lhe alguma esperança. O reverendo acede ao pedido, sem suspeitar que a escuridão que habita o coração de Michael será a gota que faltava para fazer transbordar a escuridão que existe no seu próprio copo.

Como sempre acontece nos argumentos de Schrader, esta é uma história sobre a tirania das ideias fixas – a forma como elas nos dominam e destroem; e é também, como em ‘Taxi Driver’ ou ‘Raging Bull’, sobre a crença apocalíptica (no sentido prosaico e religioso do termo) de que só podemos redimir o irredimível pelo sacrifício martirológico.

Porém, a grande diferença é que Schrader não precisou de Martin Scorsese para transformar as suas palavras em obra-prima visual. Ele próprio se encarregou disso – e a última sequência, de uma beleza dolorosa, é o resgate mais perfeito de uma alma que o cinema americano recente nos ofereceu.

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