TRANSFERÊNCIA DE PODERES ANTECIPADA

Uma cerimónia surpresa, realizada dois dias antes da data prevista, assinalou ontem, em Bagdad, a recuperação da soberania do Iraque, um ano e três meses após o início da guerra. O administrador americano, Paul Bremer, entregou ao primeiro-ministro interino iraquiano, Iyad Allawi, uma carta assinalando a transferência formal de poderes e a dissolução da Administração Provisória da Coligação (CPA).
29.06.04
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Apesar do optimismo dos intervenientes e da pretensa liberdade conquistada pelo novo governo para lidar com as questões de segurança, a verdade é que não foi assinado qualquer acordo sobre a presença e o papel das tropas estrangeiras no Iraque.
Cerca de 90 minutos antes da discreta cerimónia, realizada num edifício na chamada Zona Verde da capital iraquiana, a explosão de uma bomba foi bem audível. Mas aparentemente foi um dos únicos actos de violência do dia.
A antecipação da cerimónia e o secretismo que a rodeou foram devidos, aliás, à necessidade de iludir os planos dos radicais para encenar uma jornada de atentados e caos no dia 30, data prevista para a transferência de poderes. Circulavam rumores sobre uma alteração da data, mas só meia dúzia de responsáveis iraquianos e da coligação tinha conhecimento do momento escolhido.
A formalização da recuperação da soberania iraquiana teve lugar pelas 10h26 (hora de Bagdad), numa pequena sala da CPA. Os presentes, em torno de uma mesa de chá, foram Bremer, Allawi, o presidente iraquiano, Ghazi al-Yawar, o vice-primeiro-ministro Barham Salih, o juiz supremo do Iraque, Medhat al-Mahmoud, e ainda David Richmond, representante especial britânico. À tarde, os membros do executivo foram formalmente juramentados e empossados.
BREMER PARTE SEM POMPA
“Saudamos os primeiros passos do Iraque para ocupar o seu devido lugar, com soberania e honra, entre as nações livres do mundo”, afirma Bremer no final da carta entregue a Allawi para selar a transferência de poderes. O momento em que o representante americano leu o seu nome, como signatário do documento, e o fez acompanhar da menção: “ex-administrador da CPA”, foi saudado com sorrisos e aplausos de todos os intervenientes.
“Este é um dia histórico, um dia feliz, que todos os iraquianos desejavam ver”, afirmou Yawar, secundado por Allawi. “Fizemos isto hoje e sentimo-nos capazes e no controlo da situação de segurança”, afirmou o primeiro-ministro, agradecendo de seguida à “coligação e aos governos e povos dos países da coligação” pelo auxílio prestado “na estabilização e reconstrução do Iraque”. “Desejamos continuar a colaborar com a coligação”, concluiu Allawi.
Bremer esclareceu que a antecipação da cerimónia foi solicitada pelo primeiro-ministro, embora reconhecendo que as preocupações com a segurança foram um factor determinante na decisão de alterar a data inicialmente fixada. Pouco depois, com uma discrição em tudo idêntica à que pautou toda a cerimónia, Bremer deixou o Iraque num C-130 da Força Aérea dos EUA.
UM GOVERNO SOBERANO?
Embora em teoria o novo governo tenha poder para solicitar às tropas da coligação que deixem o país, é pouco provável que o faça. A escalada da violência nas semanas que antecederam a transferência de poderes e o facto de os membros do executivo serem alvos privilegiados dos radicais faz prever que, pelo contrário, Allawi reparta as responsabilidades da segurança com as tropas estrangeiras.
Mas as limitações dos poderes do executivo, a quem compete sobretudo preparar as eleições gerais de 2005, levam alguns a considerar que pouco lhe resta de soberania real. E, na ausência de um acordo quanto às competências das tropas estrangeiras, antecipam-se conflitos de autoridade. No caso de, por exemplo, os EUA decidirem fazer nova incursão em Falluja, o governo poderá vetar essa operação?
PERFIL
Iyad Allawi, de 58 anos, é uma figura pouco conhecida no Iraque, país que abandonou em 1971 para seguir estudos médicos e fugir ao regime de Saddam Hussein. Em 1978, exilado em Londres, sobreviveu a um atentado levado a cabo por agentes do regime iraquiano. Quando ontem foi empossado primeiro-ministro do Iraque, prometeu organizar eleições livres em Janeiro de 2005 e anunciou medidas de urgência para restabelecer a segurança no país. Anunciou ainda que os combatentes radicais estrangeiros vão ser julgados por tribunais iraquianos e instou os iraquianos, sejam eles sunitas, xiitas ou curdos, a unirem-se contra o terrorismo.
DESENVOLVIMENTOS
ACUSAÇÃO DE SADDAM
O ex-ditador Saddam Hussein será acusado em breve por um juiz iraquiano e a sua custódia transferida para as novas autoridades iraquianas.
A MAIOR EMBAIXADA
A futura embaixada dos EUA em Bagdad será a maior do mundo e terá entre 900 e mil funcionários.
CORPO DE PORTUGUÊS
O corpo do técnico português
de telecomunicações José Monteiro Abelha, morto no Iraque no passado dia 19 de Junho, deverá deixar o país até ao final da semana.
CAPTURA DESMENTIDA
As forças da coligação desmentiram ontem a captura do terrorista jordano Abu Musab al-Zarqawi, ‘representante’ da al-Qaeda no Iraque, que havia sido noticiada horas antes.
MAIS VIOLÊNCIA
Um soldado britânico foi ontem morto e outros dois ficaram feridos num atentado em Bassorá, no mesmo dia em que a Austrália anunciou a morte de um cidadão seu num ataque contra um avião da coligação.

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