"Não fiquem calados, estão a deixá-los ganhar", escreve jovem violada pelo grupo 'La Manada'

Vítima de grupo de cinco homens em Espanha agradece o apoio que recebeu. Um dos condenados pediu o passaporte à revelia do tribunal.
28.06.18

"Não fiquem calados, porque se o fizerem, estão a deixá-los ganhar". A jovem que, em 2016, foi violada por um grupo de cinco homens autodenominado La Manada pronunciou-se pela primeira vez em público desde o ataque. Numa carta enviada a um programa de televisão espanhol, agradeceu o apoio e pediu: "Denunciem".

A jovem, na altura com 18 anos, foi violada nas festas de San Fermín, em Pamplona. Os elementos do grupo – que estiveram dois anos em prisão preventiva –, foram condenados por agressão sexual e não por violação. Estão agora em liberdade condicional após pagarem uma fiança de 6 mil euros.

"Suponho que vão pensar que esta carta é para contar a minha versão e a minha experiência, mas não é. Esta carta é de agradecimento. Mãe, pai, obrigada não só pelo apoio mas por arranjarem forças onde não as tinham e terem-nas dado a mim. Obrigada por tudo o que me ensinaram e por tudo o que me vão ensinar, mas sobretudo por não me abandonarem, e por não se abandonarem um ao outro", começou por escrever a jovem, que agradeceu ainda a mais familiares e amigos pelo apoio.

"Quero agradecer a toda a gente que sem me conhecer tomou Espanha e me deu voz quando muitos a tentaram tirar. Obrigada por não me deixarem sozinha. Por acreditarem em mim, irmãs. Obrigada por tudo, de coração", continuou por dizer.

"Obrigada a todos os que falaram de mim um segundo para repudiar o que aconteceu. Associações, pessoas na rua, personalidades politicas, famosos, jornalistas que me respeitaram e, em geral, a todos os que se preocuparam comigo. Obrigada por me fazerem sentir outra vez parte da sociedade em que parece que se te violam tens que levar um cartaz de violada pendurado ao pescoço", criticou.

"Obrigada por lutarem, gritarem, chorarem e apoiarem esta causa. Por último, e para mim o mais importante: denunciem. Ninguém tem que passar por isto. Ninguém tem que se arrepender de beber, de falar com pessoas numa festa, de ir sozinha para casa ou de usar uma mini-saia. Temos que nos lamentar todos da mentalidade que tem esta sociedade onde isto pode acontecer a qualquer pessoa. Garanto-vos. Tenham cuidado com o que dizem, não sabem quantas vezes ouvi falar da ‘rapariga de San Fermín’ sem saber se essa rapariga estava sentada ao seu lado. Seguramente, não sou a ‘rapariga de San Fermín’. Sou a filha, neta, amiga e talvez, esse ‘de’ são alguns de vocês, assim que por favor pensem antes de falar", prosseguiu.

"Da mesma forma que estamos mentalizados e não gozamos com uma doença, não podemos gozar com uma violação. É indecente e está nas nossas mãos mudá-lo. Por favor, só vos peço que por muito que achem que não vão acreditar em vocês, denunciem", pediu a jovem.

E concluiu: "Para todas as mulheres, homens, raparigas, rapazes, que estão a passar por algo parecido: pode-se sair. Vão pensar que não têm forças para lutar, mas vai surpreender-vos a força que têm os seres humanos. Contem a um amigo, a um familiar, à polícia, num tweet, façam-no como quiserem, mas contem. Não fiquem calados, porque se o fizerem, estão a deixá-los ganhar".

O jornal El País contactou os advogados da jovem para tentar averiguar a credibilidade da carta. Estes confirmaram que ela tinha escrito uma premissa, mas que não sabiam de mais.


Um dos condenados pediu um novo passaporte
A Reuters noticia esta quinta-feira que um dos condenados pediu o passaporte, contrariando uma das condições para sair em liberdade condicional. O gesto de Antonio Manuel Guerrero, agente da Guardia Civil, é uma desobediência à sentença, que proibia os cinco membros do grupo de violadores de abandonar o território espanhol

A notícia foi divulgada esta quinta-feria via Twitter pela Polícia nacional, que inclui na mensagem uma imagem do Batman a dizer que não com o dedo e a hashtag 'Así No' (Assim Não)




Os cinco estão proibidos de ter passaporte e têm de se apresentar três vezes por semana numa esquadra de polícia da região de Navarra.

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