O Sr. Ministro em Albufeira

André Ventura

O Sr. Ministro em Albufeira

O novo ministro da Administração Interna, Calvão da Silva, apareceu subitamente no centro da zona de catástrofe, em Albufeira, não tanto com uma mensagem de apoio da República, mas com uma espécie de emissário do conforto religioso.
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Por André Ventura|09.11.15
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novo ministro da Administração Interna, Calvão da Silva, apareceu subitamente no centro da zona de catástrofe, em Albufeira, não tanto com uma mensagem de apoio da República, mas com uma espécie de emissário do conforto religioso. Tudo naquela hora parecia de uma incrível encenação medieval: as cheias eram demoníacas e Deus estaria a transmitir uma mensagem clara aos lesados da calamidade. O que surpreende não é o recurso à linguagem teológica ou mesmo a linguagem algo descuidada.

É o Sr. Ministro não compreender o essencial. Se os prejuízos económicos se revelaram extremamente avultados e incapacitantes para muitos comerciantes, não foi só devido à fúria da natureza. A irresponsável construção massiva e destruidora que prospera nos grandes centros turísticos algarvios, os sucessivos programas Polis mal desenhados, a desatenção aos sucessivos alertas deixados pela população e pelas associações de comerciantes, tudo teria de ser considerado e não simplesmente ignorado.

Por outro lado, a verdade é que, se os seguros contra intempéries e calamidades continuam a ser uma lacuna grave por parte dos comerciantes, muito se deve a não termos tido ainda, em Portugal, uma política séria de promoção e incentivos à constituição destes instrumentos de proteção. Basta olharmos para alguns dos nossos parceiros europeus. É isto que se espera de um governante: ação imediata e reconhecimento de causas.

O conforto e a proteção da República não pode ser o mesmo que o povo encontraria numa igreja ou numa procissão. E exigia-se também alguma consideração: se a comunidade pede, muitas vezes em desespero, a declaração de calamidade pública, não é por "qualquer coisinha", mas porque uma sombra nebulosa e angustiante se abateu sobre as suas vidas sem aviso. É que, Sr. Ministro, aqueles homens e mulheres que todos os anos nos recebem de braços abertos no Algarve são gente simples e trabalhadora. Não recebem as ‘atenções’ e as prendas de 14 milhões dos banqueiros… nem o resgate sempre pronto do poder central.

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