Às portas do Verão em terras de Moledo

António Sousa Homem

Às portas do Verão em terras de Moledo

Em tempo de eleições, Moledo não vai bem com explicações sobre a Pátria – o iodo, essa molécula que cobre de prata as areias do Minho e que se respira como se fosse o único perfume local, suaviza os ressentimentos e transforma a História num romance cheio de afabilidades. O leitor está sem paciência; o Verão aproxima-se como nuns versos de Cesário, invadindo tudo, colorindo as hortas; apenas lhe falta o humor carregado das mimosas na antiga estrada de Viana.
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Por António Sousa Homem|07.06.09
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Às portas do Verão em terras de Moledo

Em Junho, a família prepara a sua romaria anual até Ponte de Lima, depois de ter achado – há uns anos – que o calor de Agosto era demasiado inclemente para suportar a peregrinação. Trata-se de uma visita anual ao velho casarão de granitos e heras escuras, onde os Homem de outros séculos viveram períodos de felicidade e irrelevância, ignorando a imprensa, a internet, a educação sexual nas escolas e o constitucionalismo. Vivi parte desses tempos, nos Verões da infância, entre os seus muros que tombaram e foram reerguidos, e tombaram de novo, e de novo foram levantados.

Passeando pelos seus corredores, recordo aquela luz ténue, filtrada por reposteiros que impediam a entrada do Verão pleno, total e do seu calor minhoto. Bem vistas as coisas, sou o único testemunho desse tempo que terminou sem glória e sem arrebatamento, discretamente, num fim anunciado pelo andamento do mundo.

Também é verdade que o casarão limiano não viveu apenas esses 'períodos de felicidade'. Houve, como em todas as famílias sem história, tragédias (pequenas e circunspectas, recatadas), agonias com e sem amargura, despedidas tristes, memórias inconvenientes – de tudo um pouco. Também é ali que continua dependurado o retrato de Dom Miguel, testemunhando uma rara e incompreensível fidelidade que me enche de melancolia e de orgulho: a melancolia que vem da recordação e o orgulho por confirmar que a família não esqueceu as suas alianças. Da crueldade da política restou o retrato do Príncipe, que a Tia Benedita considerava o mais belo dos portugueses – um excesso que se desculpa numa senhora que se recusava a viajar até Tuy. Tudo se desculpa à nostalgia, no fim de contas, sobretudo nesta temporada em que o Verão vai e vem, ameaça e alivia, empurrado pelo vento da Galiza, que desce de Santa Tecla como um perfume preguiçoso.

Ao entardecer, durante o meu passeio diário (por receita médica), imagino Dona Ester, minha mãe, largando um grupo de crianças no areal tépido banhado pelo mar. Oiço uma gritaria. Verdadeiramente, regresso à minha vida, como ela nunca deixou de ser.

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