Hélia Correia

Eduardo Cabrita

Hélia Correia

A língua é uma arma e Hélia Correia um símbolo do meu 25 de Abril.
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Por Eduardo Cabrita|20.06.15
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Esta semana, por entre os dias tristes de um País desesperado, sem estratégia nem identidade, que despreza os seus melhores forçados à emigração, que se orgulha do trabalho eternamente precário a que sujeita jovens descoroçoados e precocemente envelhecidos, fui tocado muito longe por um raio de sol que dá alento à esperança da força da palavra e do poder revolucionário da língua em que sonhamos.

A atribuição do Prémio Camões a Hélia Correia é um daqueles momentos raros em que se sente que a vida não é exclusivamente marcada pela arrogância dos pavões da civilização de plástico, pela tonitruância bacoca ou pela diluição medíocre do pensamento em simplificações redutoras e totalitárias. De ‘Montedemo’ a ‘Lillias Fraser’, de ‘Soma’ à riqueza da reinvenção da língua nos seus Contos, é um momento de serena felicidade na tensão dos tempos que vivemos, o reconhecimento da força tranquila da reinvenção da escrita em português feita nas últimas décadas por uma das vozes simultaneamente mais poderosas e discretas da lusofonia.

Li que a autora reagiu ao anúncio do prémio com a alegria contida e quase envergonhada de uma menina surpreendida por um reconhecimento inesperado e não procurado.

Senti uma vertigem de viagem no tempo à imagem da menina de cabelo claro e olhar penetrante que ensinava francês com base na letra da Marselhesa ou do Chant des Partisans, que abria o nosso mundo falando de linguística e do sentido profundo das palavras nas aulas de português e que nos desafiava à escrita criativa ou ao jornalismo.

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