D. Manuel Martins fez-me "nascer de novo".

Eugénio da Fonseca

D. Manuel Martins fez-me "nascer de novo".

A morte é uma realidade intransponível e, para nós cristãos, a única porta de entrada na Vida onde não mais haverá "luto nem dor".
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Por Eugénio da Fonseca|29.09.17
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D. Manuel Martins fez-me "nascer de novo".
Eugénio da Fonseca, presidente da Cáritas Foto João Miguel Rodrigues

Antes de mais peço desculpa aos colaboradores dos órgãos de comunicação social por não ter acedido ao pedido para exprimir a minha reação à partida deste mundo de D. Manuel Martins. Não o fiz por ter perdido a capacidade de reação – que ainda se mantém muito fragilizada – e por saber que tudo o que pudesse dizer naqueles dias seria envolto numa descontrolada emoção. Por outro lado, só o silêncio total me preenchia a alma.

A morte é uma realidade intransponível e, para nós cristãos, a única porta de entrada na Vida onde não mais haverá "luto nem dor". Eu creio, firmemente, que assim é. Mas isso não impede que a partida deste mundo, de quem amamos, não nos traga sofrimento e nos inunde os olhos de lágrimas de saudade. O mesmo aconteceu ao próprio Cristo.

No próximo dia 26 de outubro completam-se 42 anos de uma relação humana que começou por ser, simplesmente, eclesial, ou seja, de um bispo com um, entre muito outros, diocesanos para ir crescendo na amizade até chegar à condição equiparada à de amor filial.

A minha vida biológica, a educação alicerçada nos conhecimentos académicos e nos valores humanos, a iniciação na prática da religião católica, devo tudo isto aos meus pais que trabalharam muito e honradamente para ser quem tenho sido até agora. Mas D. Manuel, no plano religioso, fez- me nascer de novo. Deixei de ser, meramente, religioso e passei a trilhar os caminhos que os cristãos devem esforçar-se por seguir. Quando esta transformação se deu, tudo se tornou mais difícil, mas a fé que professo encontrou o seu verdadeiro sentido; a esperança deixou de ser uma atitude de "braços cruzados" à espera que do "céu tudo caia", mas o dinamismo de quem tem um ideal "faz a hora, não espera acontecer"; a prática da caridade passou a ser um combate pela justiça e não uma forma de anestesiar a má consciência de um viver egocêntrico e egoísta. Acima de tudo, foi D. Manuel que me deu a conhecer o significado autêntico e o valor incomensurável da dignidade de cada ser humano.

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