O poder da caixa

João Botelho

O poder da caixa

Nixon, suando demais, feio demais, perdeu tudo para um jovem impecável chamado John Kennedy.
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Por João Botelho|13.12.15
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Hoje já não é bem uma caixa, é mais uma tira de pouca espessura, às vezes mesmo curva, para entrar e controlar melhor o cérebro cansado de quem vê e ouve, nesse terrível jogo de sedução e eficácia que engana a solidão angustiada de quem chega a casa exausto do trabalho. Foi há mais de cinquenta anos, quando o sinistro objecto era na verdade uma caixa que, num debate histórico, Nixon, suando demais, feio demais, perdeu tudo para um impecável jovem, bem vestido, bem penteado, com uma voz calma e bem treinada, chamado John Kennedy.

A lapidar frase de Sampaio da Nóvoa "com as calças do meu pai eu também era um homem", pretende atingir e denunciar o poder, e a popularidade, que ao longo de muitas horas, dias, anos de tempo de antena na TV, o professor Marcelo Rebelo de Sousa, despachando 50 ideias e 40 livros, com frases rápidas e surpreendente à-vontade, mais perto da venda publicitária do que da análise e do pensamento (atitudes que poderiam causar poderosas enxaquecas), foi construindo na sua imagem de perfeito, simpático e hiperactivo comunicador. Essa aura chegará para o guindar a presidente de todos nós? E a tentativa de ‘stand up comedy’ de Sampaio da Nóvoa chegará para impedir a ambição do professor? Dos outros candidatos a história não deve rezar.

Quem anda a rezar muito é a direcção do PSD, incomodada com o poder, aqui de análise e de pensamento crítico, que Pacheco Pereira também alcançou no raio da caixa. E ameaça excomungá-lo e corrê-lo para outras paragens. "Não o transformem em mártir, que é o que ele quer!", acudiu aflito o sábio e poderoso Ângelo Correia, preocupado com as consequências. Esta mistura de publicidade e religião é, ao fim e ao cabo, o poder da televisão, essa caixa infernal da alienação de muitos de nós.


Eu, cá por mim, prefiro o natalício vídeo musical de Cristiano Ronaldo, que, apesar das escapadelas supersónicas, sem moral nem religião, para as praias marroquinas, marca golos que se farta, bate todos os recordes e é um verdadeiro português moderno!


Antiga, velha de 800 anos, a magna carta exposta na Torre do Tombo. Escrita contra o déspota e mau Rei João de Inglaterra, para garantir a liberdade de alguns, mas a promessa da liberdade de muitos, documento único e mito que permitiu a revolução francesa, a constituição americana e uma ideia de democracia. Vão vê-la e talvez chorem.
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