O tempo que faz

João Botelho

O tempo que faz

Com um clima destes de que se haveria de queixar o nosso novo primeiro-ministro na Cimeira de Paris.
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Por João Botelho|06.12.15
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Não me lembro de um final de outono tão ameno. Chove pouco ou nada, e nem sequer faz frio. Estamos em dezembro, que diabo! Não fossem as inenarráveis iluminações das ruas e praças, do mau gosto à fealdade absoluta (bem gostaria eu de saber quem são os responsáveis pelos cones de gelados pendurados ao alto na Rua da Escola Politécnica ou sobretudo pelos três jactos de urina azul que caem do pedestal da estátua de Camões para os pôr em tribunal), e era difícil de pensar que o Natal acontece em menos de três semanas.

Com um clima destes de que se haveria de queixar o nosso novo primeiro-ministro na Cimeira de Paris, onde todos os poderosos do mundo se esganiçam e se esforçam para travar o mais provável suicídio deste belo planeta onde o carvão, o petróleo, o armamento e a ganância, pouco a pouco, o foram atirando para o desastre. Ainda bem que o incidente burocrático, que foi motivo de tanta chacota da nova oposição, o impediu de falar. Que teria ele para dizer? Congratulemo-nos, não disse nada. Somos um pequeno país, calmo, tão insignificante quanto maravilhoso, onde até a arte do chocalho é agora Património Imaterial da Humanidade.

Com a sinfonia maviosa dos badalos a ecoar vinda de todas as montanhas e todas as planícies desta terra ficam as coisas graves mais longínquas ou até talvez deixem de existir. Quem quer saber do Natal das centenas de milhares de migrantes, amontoados entre barreiras de arames farpados por essa Europa fora, ou dos que se continuam a afogar nos mares que a circundam? Desapareceram? Não existem? Quem quer saber do negócio de bilhões com que a administração americana inundou de armas os sinistros fundamentalistas sunitas donos da Arábia Saudita que depois exportam tanto a ideologia como o terror por todos os cantos do mundo? Quem quer saber que a "crise" financeira (agora somos governados por banqueiros arruinados, como dizia o outro) foi provocado para que os poucos ricos ficassem muito mais ricos e, se possível, todos os outros, muito mais pobres? Quem quer saber dos milhões de de-sempregados e dos esfomeados que há no mundo?


Nesta espécie de heterotopia, neste lugar à parte que é este pequeno país onde vivemos, está tudo sereno e faz muito bom tempo. Os chocalhos começam a fazer-se ouvir bem perto, anunciando o Natal.
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