Quase paraíso...

João Botelho

Quase paraíso...

“Não chegaram aos 25 anos, abatidos a tiro, pela jovem e nova vaga de ‘patrões’”
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Por João Botelho|20.12.15
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Este ano, fiz muitas e longas viagens. As viagens são normalmente associadas ao prazer e às descobertas. O fascínio por novas terras é, muitas vezes, desfeito pela dura realidade. Gente, muita gente, desorientada e perdida como todos neste mundo de desigualdades.

Macau, a antiga colónia, cuja toponímia é quase toda feita com nomes de portugueses mais ou menos ilustres. Os tribunais têm leis portuguesas até 2049, há varandas de ferro forjado, palacetes e jardins magníficos, a gruta de Camões e os casinos. Todos os anos, Macau cresce 4% com pedaços de montanhas atirados ao mar para mais um casino. Com 600 mil habitantes, tem a zona de maior densidade populacional do mundo. Um metro quadrado por pessoa, lixo, ratos, água suja. Todos os dias, um milhão e meio de chineses, com aspecto de camponeses nos seus fatos domingueiros, vêm limpar o dinheiro das "tríades" ao jogo. Obrigatoriamente, 10% vão para o Estado, 10% para os casinos, 80% limpos, diz-se! Formigueiro humano, autómatos sem expressão. Do outro lado, em Zhuai, há Rolls-Royce como em Londres, avenidas largas como em Moscovo, lojas como em Paris, arranha-céus como em NY.

Rio de Janeiro, uma favela "não pacificada", o complexo Maré. Miúdos, com menos de 20 anos, metralhadoras "Uzi" encostadas ao corpo, decidem a vida e as regras das outras 100 mil pessoas que ali vivem. Em frente da primeira "boca" (ou entrada), retratos hiper-realistas dos sucessivos anteriores líderes, como ex-votos. Não chegaram aos 25 anos, abatidos a tiro pela jovem e nova vaga de "patrões". Crianças seminuas em corridas de carroças puxadas por cavalos, mulheres muito novas e grávidas, velhos que obedecem, bazucas e morteiros compõem um aflitivo quadro realista.

Passo ao lado das terríveis guerras do Médio Oriente e do centro de África, onde se matam milhares e de onde fogem, desesperados, outros tantos. Por cá ninguém morre a não ser por crimes passionais ou por velhice. Continua a fazer bom tempo. E o "quase" tem a ver com a crispação e raiva da direita, a possibilidade de um presidente cata-vento substituir um presidente abúlico, as trapalhadas do caso Sócrates, a libertação de Ricardo Salgado e a hipótese, mais que provável, da prisão para todos os lesados do BES. Os outros europeus descobriram este nosso paraíso. Não se ouve uma palavra de português no centro de Lisboa!
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