Costa, "esse frouxo"

João de Sousa

Costa, "esse frouxo"

Confrontado com as normas sem sentido que se refletem nos reclusos, Sócrates dizia que a culpa era do ex-ministro Alberto Costa.
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Por João de Sousa|06.12.15
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Todos os grandes homens passaram pela prisão! Todos injustiçados, mas a História contará a verdade, João!" Foi há cerca de um ano – 27 de dezembro de 2014 – que José Sócrates pronunciava estas palavras, de botas calçadas (as famosas botas), casaco polar fechado até ao queixo, encolhido, com as mãos "calçadas" com umas meias, porque o diretor não permitia (e ainda não permite) a entrada de luvas.

"Que espírito pequeno tem esta gente! Qual é o problema de termos luvas, cachecol, aquecimento na cela?", questionava o preso 44 nos nossos passeios pelo pátio. E sorrindo, eu, que também caminhava gelado, alertei o José para o facto de ter sido o Governo dele a aprovar tais normas.

Sacudindo a água do capote, explicou- -me que o primeiro- -ministro delega nos seus ministros a realização da legislação das áreas que tutelam, e neste caso a culpa era "do Costa [Alberto Costa, que foi ministro da Justiça], que sempre cedeu à direita nestas questões". "Mas o José não tem a palavra final?", perguntei. "Claro, eu sempre autorizei [e esta foi a palavra que utilizou] o texto final das leis." Estávamos em dezembro, um mês após a sua prisão, ainda com os ódios que depois votaria a certas personagens do PS em estado embrionário. Outra história: "Como é possível, João? Já saiu a sua acusação e você ainda aqui!" Mais uma vez fomos os dois ver ao Código de Processo Penal: "Repare, José, existe ainda perturbação da instrução, logo mantêm a prisão preventiva"; "Você aceita isso assim?" Respondi- -lhe que era a lei, não estava de acordo, mas era a regra. "As regras que o José legislou", avancei. "Eu?! Foi o Costa, esse frouxo sempre fez tudo o que o Ministério Público queria!"; "Mas a palavra final não era do José?"; "Nada disso. Acha que eu controlo todas as pastas? Isso foram coisas do Costa!"

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Cadeia reserva-lhe lugar na História
Mas por ter sentido aqui na pele aquilo que legislou
A propósito das restrições e falta de condições que o ex-44 encontrou aqui em ‘Ébola’, não resisti a dizer-lhe: "O José ficará para a História como o primeiro-ministro que sentiu verdadeiramente na pele o que legislou!"

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