O politiqueiro brejeiro

João de Sousa

O politiqueiro brejeiro

Invoquei numa conversa o escritor Saramago. José sentenciou: "esse tipo é um falso homem de esquerda, um encapotado".
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Por João de Sousa|04.10.15
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Uma das primeiras conversas que mantive com José Sócrates, foi sobre o fascínio dos livros, sobre o quanto eu gostava de poder falar com os autores sobre as suas obras: o que os motivou, qual o impulso para escrever sobre determinado tema. Como é óbvio, foi um passo muito pequeno até revelar ao José a curiosidade pelo Poder, os corredores do Poder, a Política e os seus protagonistas; afinal sou doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais e tinha ao meu lado um ex-1º ministro.

Comuniquei-lhe que sempre votei em branco, pois somente se conhecesse pessoalmente o candidato, se o olhasse nos olhos, se o "cheirasse", poderia, confiantemente, dar-lhe o meu voto.

Invoquei o ‘Ensaio sobre a cegueira’ do Saramago, por causa da questão do voto, e um José manifestando desdém, sentenciou: "João, você precisa de ser educado culturalmente, esse tipo é um falso homem de esquerda, um encapotado!" E a qualidade da escrita, perguntei eu. "Não existem escritores em Portugal. Deveria ler mais em francês". Fiquei admirado porque Saramago foi Nobel. Considerei uma questão de gosto. Voltei à política e aos políticos.

Tentei perceber qual a imagem que aquele político preso – o José – tinha dos seus correligionários e dos seus opositores: pasmei! Sócrates não falou de ciência política, ideologia, economia política ou estado social. Como um verdadeiro cortesão corrosivo, arrasou à esquerda e à direita, por cima e por baixo, revelando-se um autêntico politiqueiro brejeiro.

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