Foram 602, sim 602!

Jorge de Sá

Foram 602, sim 602!

Vivemos um tempo em que até os comentadores tiveram de se render a esse instrumento poderoso de gestão da política que são as sondagens de opinião.
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Por Jorge de Sá|11.09.15
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O impacto mediático da sondagem publicada quarta-feira pelo CM em que a coligação PSD/CDS obteve 38,9% e o PS 33,3% ultrapassou claramente o número dos leitores do jornal e dos espectadores da CMTV, tendo originado uma onda de comentários, muitos desajustados, o que, mesmo assim, só pode ser visto de forma positiva por ter originado discussões, troca de opiniões, gestação de opinião pública, enfim, cidadania.

Tudo seria portanto de aplaudir, não fosse a ignorância e/ou a má-fé de alguns comentadores "especializados em tudo" que, para não ficarem mal na função para que são pagos, mentem, inventam ou, na melhor das hipóteses, repetem, como papagaios (ou pegas), argumentos criados por outros que, mais argutos (ou menos mediáticos), se escondem atrás de apreciações pretensamente científicas, mas cuja cientificidade se revela, no mínimo, precipitada.

No caso da sondagem divulgada quarta-feira pelo CM, a estimativa da abstenção foi de 36,2% do total dos inquiridos (602 eleitores), enquanto os 38,9% da coligação e os 33,3% do PS foram calculados com base nos votantes. Numa análise simplista, resultante da aplicação de uma regra de três simples, o número de votantes na sondagem teria sido de 384 (na realidade até foram 377) mas, desconhecendo este número, qualquer analista digno desse nome procuraria exprimir as diferentes percentagens em causa numa mesma base, a do total de inquiridos na amostra que, numa sondagem, é conhecida e inequívoca: neste caso 602.

Sem querer incomodar o leitor, resumo o fundamental: em relação ao total da amostra, PSD/CDS tiveram 24,8% e PS 21,2%, ou seja, para as estimativas mais usuais, a intenção de voto na PAF varia entre 21,4% e 28,3% e no PS entre 18,0% e 24,5%. Estes intervalos cruzam-se, pelo que a diferença não é estatisticamente significativa, ou seja, a sondagem não deixa de ter dado um "empate técnico".

Vivemos um tempo em que até os comentadores, que outrora possuíram o monopólio da especulação sobre o futuro próximo, tiveram, mesmo se a contragosto, de se render a esse instrumento poderoso de gestão da política que são as sondagens de opinião. Seria bom, então que, para serem credíveis, estudassem um bocadinho mais do assunto, quanto mais não fosse para evitarem ser manipulados por aqueles que optam por disparar sobre o mensageiro quando a mensagem lhes desagrada.
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