Sortido de politicamente correcto

José Diogo Quintela

Sortido de politicamente correcto

Se confundir um homem com uma mulher é grave, diferenciá-los também é.
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Por José Diogo Quintela|18.03.17
Eis a selecção semanal do politicamente correcto no mundo. Todos vimos a entrevista de um comentador inglês que é interrompido pela entrada dos dois filhos e da mulher. Sucedeu a inevitável indignação. Nomeadamente, por muitas pessoas terem pensado que a mulher, sendo asiática, era a empregada. "Preconceito!", gritou-se, "Probabilidades!", respondeu-se. A estatística diz que, habitualmente, os brancos casam com brancas. Diz também que é comum haver baby-sitters asiáticas. Não interessa, é ofensivo. Donde se conclui que induzir é feio. Talvez seja melhor proibir os livros de Sherlock Holmes, que, preconceituosamente, ganhava a vida a inferir coisas. Entretanto, acho estranho ainda não ter aparecido indignação por toda a gente ter assumido que a mulher, só por ser mulher, é mulher.

Uma assunção que vai deixar de ocorrer na Força Aérea dos EUA. Analisemos a frase: ‘Bombardeei uma aldeia afegã e pulverizei 7 rapazes e 4 raparigas’. O que está mal? Para a FA americana é o uso dos termos ‘rapazes’ e ‘raparigas’. Fazem parte de uma lista de palavras proibidas, para que não se cometa a ofensa de confundir o género de alguém. Matar, sim; melindrar, nem pensar. São militares treinados para avaliar com rapidez se um alvo é dos bons ou dos maus, mas não se pode confiar neles para distinguirem um homem de uma mulher. Pelos vistos, se derem um tiro num escroto, o chato é acharem que o estavam a dar num pipi.

Se confundir um homem com uma mulher é grave, diferenciar um homem de uma mulher também é. O eurodeputado polaco Janusz Korwin-Mikke, por ter dito que o homem é superior à mulher, foi multado em 307 euros por dia, durante um mês, e foi suspenso durante dez dias. A forma como se ensina a alguém que não se devem restringir direitos a pessoas só porque não são do mesmo sexo que nós é restringir direitos a pessoas que não pensam da mesma maneira que nós. (O único ponto positivo é que, por um mês, vai receber o que julga que as mulheres deviam receber).

Mas não se é punido apenas pelo que se diz. Também se é castigado por algo que não se disse. Foi o que sucedeu a Doug Adler, comentador de ténis da ESPN. Enquanto relatava um jogo de Venus Williams, disse que a tenista jogava com o ‘efeito guerrilha, a carregar’. A expressão ‘ténis de guerrilha’ surgiu nos anos 90, a partir de um anúncio da Nike em que Sampras e Agassi jogavam no meio de Nova Iorque. Alguém percebeu mal, achou que Adler tinha chamado ‘gorila’ a Williams, foi para o tuíter espernear, um jornalista do NY Times viu e, percebendo que era engano das redes sociais, corrigiu o equívoco. Estou a brincar: como é óbvio, o repórter cavalgou a indignação e Adler foi despedido. Entretanto, teve um ataque de coração. Embora no tuíter ninguém acredite, pois foi desde logo decidido que, como racista, não tinha coração.

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