A lei dos sem vergonha

Octávio Ribeiro

A lei dos sem vergonha

O tiro que Jerónimo de Sousa deu nos próprios pés já não tem veto possível.
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Os partidos políticos tradicionais estão em crise por toda a Europa. No sul do continente, só Portugal permanece fiel aos grandes partidos que emergiram do 25 de Abril. Há depois fenómenos momentâneos, como o PRD, no passado, e agora o Bloco de Esquerda, que tendem a ser absorvidos pelas máquinas dos partidos com maior afinidade. O PCP e o seu perfil ortodoxo, com ecos fundos da utopia soviética, é, sem dúvida, um dos pilares desta estabilidade institucional que nos garante um sistema de democracia representativa com razoável capacidade de regeneração.

A forma como foi negociada e aprovada a nova lei do financiamento partidário é uma vergonha para todos, mas principalmente para o PCP. Só CDS e PAN se salvaram, neste naufrágio da lucidez. Que o Bloco de Esquerda se comporte como adolescente aos saltos, de nenúfar em nenúfar ideológico, até se tornar uma irrelevante muleta do PS, parece natural. Inexorável, mesmo. Mas o PCP?

Por um punhado de euros a mais, fruto das receitas da Festa do Avante, Jerónimo de Sousa deitou para trás das costas os princípios fundacionais do seu partido e votou ao lado do PSD e do PS (com o Bloco, também, claro) o regresso descarado dos homens das malas de dinheiro. Da opacidade, com o fim dos limites à circulação de dinheiro vivo no apoio à atividade partidária. A cereja no topo do bolo, com a isenção de IVA de que os partidos iriam beneficiar em toda a aquisição de bens e serviços.

Parece óbvio que Marcelo irá devolver este diploma desavergonhado ao Parlamento, onde nunca deveria ter nascido. Mas o tiro que Jerónimo de Sousa deu nos próprios pés já não tem veto possível. O PCP aceitou entrar no gang das desproporcionadas subvenções partidárias, num profundo insulto ao Povo que diz defender. Inesquecível.
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