Ódio e ‘silly games’

Rui Moreira

Ódio e ‘silly games’

O dirigente desportivo deve-se resguardar, não confundindo rivalidade com inimizade e evitando discursos provocatórios.
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Por Rui Moreira|28.08.16
Alguma tinta correu, esta semana, depois de um vice- -presidente do Benfica ter manifestado, num programa televisivo, a convicção e o desejo de ver o FC Porto goleado em Roma no jogo de apuramento para a fase de grupos da Liga dos Campeões. Como isso não sucedeu e, pelo contrário, o Porto goleou a Roma, é natural que o gáudio portista pela vitória tenha travo melhorado por esse prognóstico errado.

Ri-me, confesso, porque em vésperas das últimas eleições autárquicas, e no mesmo programa desportivo, o mesmo senhor fez uma das suas desastrosas incursões pela política e prognosticou, com razoável grau de certeza, a minha derrota... Nas redes sociais, muitos benfiquistas garantiram que não se reviam nas declarações desse vice-presidente do seu clube, ao desejar goleada em Roma, mas citaram casos em que adeptos, claques e comentadores portistas também desejaram a pior das sortes ao Benfica em competições europeias.

Ora, não se pode confundir o comum adepto com o dirigente desportivo. O adepto não tem o mesmo nível de responsabilidade e, mesmo quando se trata de compromissos internacionais do rival, não comete crime de lesa-pátria por desejar ou até celebrar o seu insucesso daquele que é rival internamente. Assim sucede por toda a Europa, tanto mais que a Liga dos Campeões é uma prova em que os clubes concorrem, desejavelmente, sem preocupações nacionalistas e se representam, sobretudo, a si próprios. Já o dirigente desportivo deve-se resguardar, não confundindo rivalidade com inimizade e evitando discursos revanchistas e provocatórios. Pela responsabilidade do cargo e por dever de civismo e cidadania, mais a mais tratando-se, neste caso, de um antigo governante do País.

Resta perguntar qual o impacto de discussões públicas deste género onde dirigentes zurzem ódios e se fala de cabalas futebolísticas, onde nos tentam convencer que os jogos se ganham fora das quatro linhas e não pelo melhor ou pior futebol. Para as televisões, estas discussões são ‘reality shows’ interessantes e baratos, que convocam um público- -alvo e mantêm audiências. Mas, inevitavelmente, causam dano ao futebol, convocam violência e prejudicam todas as entidades envolvidas numa indústria, a começar nos próprios clubes que os interlocutores representam, e cuja credibilidade não precisa de mais abalos.

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