Desculpe o transtorno

Sérgio Pereira Cardoso

Desculpe o transtorno

Ao acabar de ler a carta deixada no chão do seu café, Mário Boavida pensou estar a ser alvo de uma brincadeira.
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Por Sérgio Pereira Cardoso|09.10.16
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Desculpe o transtorno

Afinal, nem uma semana tinha passado desde a madrugada em que o estabelecimento, na cidade de Almeirim, tinha sido alvo de furto. Um grupo de bandidos levou o que pôde: bebidas, micro-ondas, projetores, amplificadores e leitores de CD. No fundo, o necessário para uma festa de arromba.

Quatro dias depois, estávamos a 27 de janeiro de 2009, e ainda a pensar no prejuízo de mais de sete mil euros, Mário encontrava a tal carta, entregue no café, por debaixo da porta, também durante a noite. A prosa estava escrita em bom português. "Pedimos desculpa pelo transtorno causado. A nossa ideia era levar as bebidas, mas o resto estava mesmo à mão. Mais uma vez, as nossas desculpas", lia-se na missiva, acompanhada por um ainda mais inusitado croqui, em jeito de mapa, que parecia indicar o caminho para reaver o material que tinha sido roubado. Bastava chegar ao X, qual caça ao tesouro.

"Esta gente ainda me goza", julgou Mário Boavida, compreensivelmente cético em relação à existência de uma estirpe de bandidagem com sentimentos tão nobres como o arrependimento e a compaixão. Mas, antes de recusar o papel de Indiana Jones na busca pelo micro- -ondas perdido, o comerciante foi à GNR. O documento cartográfico parecia bater certo com a realidade de Almeirim e lá avançou uma comitiva rumo ao X. "Eu nem queria acreditar. Era um barracão abandonado, a 500 metros de minha casa. Estavam lá todos os artigos, menos as garrafas. Tudo tapadinho com mantas", contou Mário.

Confesso que tentei, sem sucesso, perceber se este grupo alguma vez chegou a ser detido e condenado. Sinceramente, espero que não. Desde logo, pela excelência do português - hoje em dia, não escrever "pedi-mos desculpa" já devia dar direito a mestrado. Depois, foram sinceros. Disseram que o objetivo era a bebida e e só ficaram com o melhor uísque, um bem de primeira necessidade para o frio de janeiro. Acresce-se que se mostraram arrependidos e, melhor, arrumados. Até umas mantinhas estenderam para não se acumular pó no material furtado. Gente honesta desta é deixá-la cá fora.

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