Más companhias

Vanessa Fidalgo

Más companhias

"Desviou-se à rasca mas uivou como se as entranhas lhe tivessem sido rasgadas. Pareciam que estava a ser torturada..."
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Por Vanessa Fidalgo|25.09.16
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Estar sozinha na esplanada ao domingo não lhe fazia confusão. Há muito que estava só. Os vizinhos imputavam a sua solidão ao dia em que pôs à porta as malas do único namorado que lhe conheceram. Ou ao facto de não trabalhar. Ninguém tinha razão. Estava sozinha praticamente desde que nascera, pois era assim que tinha escolhido viver. Até a mãe a recordava dessa forma: "Essa aí… sempre foi bicho do mato!"
Como é óbvio cresceu tesa e ressabiada. Não sorria porque não precisava dos favores de ninguém. Não ouvia porque nada lhe podiam ensinar. Pouco falava… não fosse algum oportunista espreitar-lhe a alma e destapar-lhe as dores. As pessoas só traziam chatices. Estava muito bem como estava, cada vez mais empedernida.
Passava os dias a observar e a desdenhar do ‘quotidiano medíocre’ dos outros enquanto folheava as páginas de uma revista estrangeira ou enfiada num cinema vazio a ver ciclos de cinema de autor. A única coisa mundana que gostava de fazer era ir à Feira da Ladra, ver sempre as mesmas bugigangas espalhadas pelo chão. De vez em quando comprava qualquer velharia à qual fingia dar valor. Em abono da verdade, focava-se apenas no vendedor. Escolhia um que não fosse habitué, com os pertences de uma partilha tesa espalhados na manta de croché do defunto. Quanto mais tísico, melhor. Nem ela sabia o que procurava com aquilo. Talvez a remissão dos próprios pecados. A ínfima hipótese de absolvição no juízo final.
Quando voltava a casa, enfiava tudo no fundo da gaveta. Foi o que fez com um garfo que um jovem de dedos amarelados do tabaco lhe jurou ser de prata. Ela fingiu engolir o engodo com desdém. A partir daí nunca mais os seus dias foram entediantes. Mal soou a meia-noite, as gavetas e as portas abriram e fecharam numa chinfrineira doida. Os garfos e as facas elevaram-se no ar e apontaram os bicos na sua direção. Desviou-se à rasca, mas uivou como se as entranhas lhe tivessem sido rasgadas. Parecia que estava a ser torturada. Se calhar estava mesmo…
Saiu a gritar e vieram os vizinhos. Até lhe deram um caldo quente, que bebeu envergonhada. Mas essa foi apenas a primeira noite de más companhias...
Noutra vez, as torneiras deram em abrir e fechar e vieram os bombeiros. Depois, a aparelhagem berrava ópera mesmo desligada e veio a polícia. Até que foi a uma agência e lhe colocou um cartaz a dizer "vende-se" à janela. Mudou-se então para um hotel, o mais movimentado e concorrido da capital, para não correr o risco de ficar sozinha!
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