O campo da fome

Vanessa Fidalgo

O campo da fome

Os homens ficaram perplexos, as mulheres horrorizadas e as crianças gritaram. Nunca tinham visto semelhante mau agoiro.
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Por Vanessa Fidalgo|13.11.16
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Como ainda hoje é tradição lá mais para o Norte do País, sempre que as lavouras juntavam muita gente da aldeia de Formariz, cabia aos proprietários dos campos vetustos oferecer o repasto a todos os que tinham lançado as mãos à terra para colaborar.

Chegava a hora do almoço e estendiam-se toalhas de linho nas sombras frondosas, onde homens e mulheres se reuniam em redor dos cestos carregados de broa de milho ou de centeio, caldo de feijão, enchidos e nacos de carne, que enchiam o bucho e recompunham o espírito. Assim tinha de ser, em tempos em que o pão, às vezes, não abundava e em que o trabalho da terra exigia força de sol a sol. Tudo isto era regado por boas malgas de vinho e, claro, uma dose de cavaqueira amena, antes de voltarem aos campos para a jornada da tarde.

Os homens jogavam à malha, as mulheres aproveitavam a pausa para coser e bordar, rodeadas de crianças que brincavam e riam livremente em seu redor. Entre os rapazes e raparigas em idade casadoira, havia quem aproveitasse a menor vigilância de pais e irmãos para trocar aquele olhar carregado de intenções ou, até, para roubar um beijo por entre os esconderijos sagazes que as videiras marotas ofereciam. Mas certo dia, a rotina foi quebrada pela chegada de um cão escanzelado e ossudo, com ar esfaimado.
A presença do bicho incomodou os que forravam o estômago e, só por isso, foi enxotado, sem sequer lhe terem oferecido uma côdea de pão.

– Fora, cão! Xô...! – começou um.
– Vai-te embora! – ouviu-se num coro.

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