O olhar crítico da tia

Vanessa Fidalgo

O olhar crítico da tia

José e Valéria tinham trocado alianças há pouco tempo na terra que ele procurou para fintar a crise.
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Por Vanessa Fidalgo|04.09.16
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De volta à terra de José, resolveram que o melhor seria aproveitar a casa vazia da falecida tia-avó dele, um apartamento frio num bairro que apesar das paredes pintadas de cores garridas nunca deixou de ser cinzento, frente ao cemitério de Gaia.

Valéria trazia no linguajar o seu português açucarado e a alma impregnada com as crenças e superstições da sua cultura do sul do Brasil. Por isso, José não estranhou quando ela começou a substituir os napperons e os bibelots de loiça da velha e falecida tia por velas aromáticas ou espanta-espíritos. Nem sequer quando ela, um pouco a medo, lhe confessou.

- Ai Zézé, não gosto nada do jeito que aquele quadro me olha...

O quadro era o retrato da matrona, pintado há umas boas décadas atrás, por um vizinho que ganhava uns trocos a fazer retratos. Traduzia bem o olhar austero e sempre crítico que José conhecera nas feições e no feitio da tia em vida e talvez por isso não o incomodava. Parecia-lhe até uma obra bastante realista, dentro do pouco ou nada que percebia de arte. Mas para Valéria, o peso daquele olhar a seguir-lhe os passos de todos os dias incomodava. E muito...

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