Ricos e melros

Victor Bandarra

Ricos e melros

Alguns ricos, desleixados, caem que nem tordos. Mas não consta que caiam que nem melros.
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Por Victor Bandarra|02.10.16
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O melro é um pássaro muito curioso. Acasala com a mesma fêmea por muitos anos, marca e defende o seu território até ao fim da vida, vive e convive bem no seio de aglomerados humanos. Tem conquistado cidades e jardins. Os seus pios sonoros enchem manhãs e fins de tarde, sinal de tempo quente. Quando se sente ameaçado, prefere não dar nas vistas. Tem geralmente plumagem negra e brilhante e não consta que passe fome. Alguns emigram pelo Inverno, mas a maioria prefere por inteiro o recato lusitano. Fazem ninhos de Janeiro a Junho, escondidinhos, e trauteiam discretos gorjeios para atrair fêmeas. "Quando o melro canta em Janeiro, é tempo de sequeiro o ano inteiro", diz quem sabe e quem viu. É assim o melro, muito dado mas muito difícil de caçar.

O melro faz lembrar grossa fatia de ricos, a dos novos ricos, a dos ricos recentes ou antigos, que, com mil cuidados, começam a dar aflitivos sinais de riqueza envergonhada. Já não são o que eram, como apontou o prestigiado Henrique Monteiro (Expresso), meu camarada de profissão. E deu-lhe para citar Guerra Junqueiro, no poema O Melro – "Era negro, vibrante, luzidio..." Henrique faz trocadilho – troca "melro" por "rico" e "negro, vibrante e luzidio" por "gordo". Perspectiva pessoal, conclui Henrique que os socialistas do PS estão a confundir os ricos de agora com os de antigamente no que toca ao esquema-Mortágua de taxar fortunas dos ricos e muito ricos, mais a queda do sigilo bancário. Por entre minudências constitucionais, o Presidente Marcelo que fique com a batata quente.

Descendo à terra da realidade, ninguém com dois dedos de tino, nem sequer o pessoal do Bloco e do PCP, acredita hoje em ricos de pança proeminente, charuto e casaca. É canto de sereia que deu uvas. Trocadilho por trocadilho, ainda que difícil de constatar, muitos melros de sapatos de ténis e t-shirt, tipo Bill Gates, continuam carregados de gordura – gordura financeira, gordas fundações, gordos maços de notas velhas, contas caladas em ilhas tropicais. Os melros mais espertos até conhecem de retina a cor do dinheiro, guardam-no debaixo do colchão ou em cofres disseminados pelo Mundo. No poema de Junqueiro, o melro é "madrugador e juvenil", gozando ricamente com o pobre padre cura. Alguns ricos, desleixados, caem que nem tordos. Mas não consta que caiam que nem melros. São quase todos vibrantes, madrugadores e joviais. Alguns, contingências da História, são negros e luzidios.
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