As reguadas de Dona Tininha

Victor Bandarra

As reguadas de Dona Tininha

Victor Hugo é autor de uma frase lapidar: ‘Abrir uma escola é fechar uma prisão.’ É verdade.
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Por Victor Bandarra|15.05.16
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Dona Tininha, primorosamente arranjada e maquilhada, recebia as crianças em sua casa com o porte altaneiro de genuína e orgulhosa mestre-escola. Na realidade, ela era "A Mestra" e a sua casa a escola de duas dúzias de rapazes e raparigas. Por essa década de 60, mau grado a publicidade de então e o revivalismo de hoje, não havia assim tantas escolas primárias, nem sequer nos arredores finos de Sintra ou Cascais. As escolas públicas das "primeiras letras" não chegavam para todos, nem para todas as encomendas, basta atentar nos números do analfabetismo de então. Dona Tininha executava com brio o chamado "ensino doméstico". Nem era muito caro. Havia uns quantos ricos, poucos, uns quantos pobres, também poucos, o resto eram os ditos remediados. Os muito pobres, se os pais estivessem para aí virados, andavam na escola pública. Os muito ricos andavam em colégios privados, religiosos ou nem por isso. Quanto aos remediados, distribuíam-se conforme as posses e ambições paternas. E ninguém diga que a 4ª classe do antigamente era um sucesso. Havia as "quartas classes" bem tiradas e as mal tiradas. Tudo dependia do professor/a. Dona Tininha, rígida mestra de coração mole, fingia seguir à letra alguns costumes de então. Cada erro ortográfico no ditado dava direito a uma reguada, quatro faltas de acentos mais uma palmatoada. Sentada no banco alto, Dona Tininha fingia que dava reguadas. Acertava com a "menina de 5 olhos" nas mãozitas, mas só ao de leve. Apenas exigia que não lhe fugissem com a mão, era falta de respeito. No século XIX, Andrade Corvo dizia que o professor primário deve ser "um homem do povo ilustrado". O Estado Novo, espertalhaço, adiantou que "a missão do mestre primário é formar em simultâneo o cristão e o cidadão". E o ensino primário transformou-se numa espécie de sacerdócio. Para Dona Tininha, ensinar era um sacerdócio.
Victor Hugo é autor de uma frase lapidar: "Abrir uma escola é fechar uma prisão." É verdade. Mas hoje, correm por aí discussões ridículas, perigosas e interesseiras sobre abertura ou fecho de escolas privadas. Miúdos bem arreados e melhor industriados ostentam cartazes em defesa da sua escola privada, tantas delas pagas com dinheiros públicos. À moda de Dona Tininha, deviam defender mais a liberdade de escolherem os professores e menos o direito de escolherem as escolas. Mais do que a escola de pedra e cal, é preciso exigir que todas as crianças possam ter acesso público à boa, livre e duradoira educação, como quem diz, aos bons professores. Dona Tininha havia de pregar umas boas reguadas, a sério, a muitos industriais e comerciantes do Ensino que pululam por aí.
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  • De tomar15.05.16
    Abaixo o ensino privado, todos devem ser iguais. As escolas privadas, na sua maioria, só criam parasitas. Têm boas notas mas nem a tabuada sabem.
1 Comentário
  • De tomar15.05.16
    Abaixo o ensino privado, todos devem ser iguais. As escolas privadas, na sua maioria, só criam parasitas. Têm boas notas mas nem a tabuada sabem.
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