CALORES LUSO-BRASILEIROS

Victor Bandarra

CALORES LUSO-BRASILEIROS

Pessoal! Aqui, posso viver debaixo da ponte o ano inteiro…
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Por Victor Bandarra|26.08.18
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Tem estado ‘um calor e ananases’, como diria Fradique Mendes, pela pena de Eça de Queiroz. Por estes dias, podem usar-se outras frases castiças caídas em desuso como "está de rachar" ou "derrete os untos!" Denise e Raimundo, brasileiros de Santa Catarina, chegaram esta semana a Lisboa. Pouco dados à leitura de Eça, escolheram tiradas como "tá quente pra caracá" e "tá quente pra dedéu!", para terminarem com um estrondoso "tá quente pra c.!" É a primeira vez que estão em Portugal. Na esplanada do restaurante lisboeta, trocam ideias sobre clima e temperaturas com Josimar, compatriota do Ceará, empregado de mesa habituado a vários calores luso-brasileiros. "Tá bem hot, rapaz! Nem parece Europa..."

Há uma ideia feita e assente na cabeça de milhões de portugueses. Assim: o Brasil é um país tropical, onde faz sempre um calorzinho de praia ou até um calorzão danado. Do lado brasileiro, o princípio é o mesmo. Assim: se vai viajar para Portugal compre um bom casacão porque lá faz sempre um frio gelado. Poucos brasileiros hão-de reparar que o recorde oficial de calor no seu país (44,70C em Bom Jesus do Piauí, Dezembro de 2005) está ainda longe da fornalha registada na Amareleja (47,40C) em 1 de Agosto de 2003. Por cá, quem idealiza o Brasil com garotas de bikini brilhando em gotinhas de suor, desconhece que o recorde de frio no país tropical é de 14 graus negativos, registados em Caçador, Santa Catarina, em 1954. É verdade que, neste capítulo de frio, Portugal bate por pouco o Brasil: 16 graus negativos em Miranda do Douro, também 1954.

A memória, quase sempre, é curta, mas há memórias bem arreigadas. Milhares de portugueses emigrados para o Brasil entre 1900 e 1930 abalaram das terras frias do Minho, Beiras, Trás-os-Montes e Alto Douro. Muitos fizeram-se à vida no Rio de Janeiro, cidade tropical. Muitos chegavam sozinhos, ainda crianças, à praça de Mauã. Calcorrearam percursos de luta, resiliência, nem sempre de sucesso. Há uns anos, a história de um velho setentão sem--abrigo, encontrado a viver no areal sob a Ponte de Niterói, fez sucesso na TV brasileira. Era José, português transmontano chegado ao Rio com 12 anos, para trabalhar na padaria de um tio. A vida amorosa correu-lhe mal, a mulher traidora fugiu com outro. De vergonha, José desapareceu dos círculos lusitanos cariocas. Nunca tratou da papelada brasileira. Foi encontrado sem documentos. O consulado tratou do caso, queria repatriá-lo para a sua aldeia-natal. José jurou que nem morto queria voltar a Portugal. No ecrã, o velho emocionou o Brasil com o seu fraseado carioca e sotaque ainda transmontano. "Pessoal! Aqui eu posso viver debaixo da ponte o ano inteiro! Vocês nem imaginam o frio que faz lá na minha terra!..." No restaurante lisboeta, muito seriamente, os santa-catarinenses insistem em informar o cearense: "Este ano, em Urupema, lá em Santa Catarina, até a água da cachoeira gelou!" José, nativo do sertão quente, recusa-se a acreditar. Nem mesmo quando lhe mostram a fotografia no Facebook.

Texto escrito na antiga ortografia

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