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Uma belíssima ouvinte

Victor Bandarra

Uma belíssima ouvinte

Miguel e Martinho criaram profunda amizade. Colegas de trabalho, o lisboeta Miguel e o portuense Martinho só se desentendem no que toca à clubite
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Por Victor Bandarra|13.08.17
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Miguel e Martinho criaram profunda amizade. Colegas de trabalho, o lisboeta Miguel e o portuense Martinho só se desentendem no que toca à clubite. Miguel benfiquista ferrenho, Martinho portista alucinado. A pretexto de umas tripas como não se amanham em Lisboa, Martinho convida o amigo para uma saltada ao Porto. Senhor de cabedais à antiga, Martinho tem casa na Foz, posta pela família. Chegado à Invicta, Miguel faz-se anunciar por uma campainha de badalo. Martinho tem fama e proveito de pândego humorista. "Miguel! Temos aqui um dos melhores badalos do país!" Trocadas corriqueiras piadas do futebol, Miguel anuncia uma saída por meia-hora. "Vou comprar uns vinhos... Ficas aqui com a minha irmã!" Miguel escancara a boca, sem fala, quando Martinho lhe apresenta a rapariga - cabelos pretos de azeviche, pele de uma brancura inglesa, olhos azuis escuros. E a pose! Uma pose altiva, suportada por busto à Jane Mainsfield e um sorriso de fada. "Ó Miguel! Ficas bem entregue! A Clara é uma das melhores ouvintes do Mundo!". Solta sonora gargalhada e abala porta fora.

     Miguel, recomposto, senta-se no sofá da sala, enquanto Clara põe um CD de Rui Veloso. "Boa! Gosto à brava do Porto Sentido..." Clara sorri, cabeça inclinada num trejeito delicioso. O rapaz sustém a respiração quando a miúda traça a perna ao sentar-se. Ostenta vestido negro e justo, com racha, de uma elegância irrepreensível. Miguel faz conversa. "Sempre quero ver a que sabem essas famosas tripas à moda do Porto... feitas no Porto!" Clara abre mais o sorriso. O lisboeta disserta sobre vinhos e petiscos. E Clara com um sorriso esfíngico. E Miguel passa ao elogio das belezas do Porto. E Clara com eterno sorriso, e mais uma mudança de perna sobre perna. E Miguel sem lhe conseguir arrancar uma palavra. Ao fim de um quarto de hora, falho de imaginação, Miguel acaba o seu reportório de histórias e piadas. E Clara impávida e serena, trocando Rui Veloso por Rui Reininho. Baralhado, já sem verve, Miguel opta pelo silêncio. Levanta-se, pede licença e retira um livro da estante. Clara concede, com gesto largo, esticando os longos dedos de pianista. Até que Martinho entra afogueado, abraçando uma caixa de vinhos do Douro, pois com certeza! "Então?! Tudo bem?! A Clara não é lá grande conversadora, pois não?!" Miguel confirma, atrapalhado. É então que Martinho inicia um conversa em língua gestual com a irmã; os dois sorridentes, radiantes e bem dispostos. "Ó Martinho, meu bandido! A tua irmã é surda-muda?" Martinho explica que a irmã é simplesmente surda, por isso não consegue articular palavras. "Mas sabe ler nos lábios!" Despedidas feitas, já a caminho do restaurante, Miguel não resiste. "E o que é que a tua irmã achou de mim?". Ironicamente sério, Martinho explica. "Disse-me que és muito simpático! Mas que falas demais..."    

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