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A genuína cor do dinheiro

Victor Bandarra

A genuína cor do dinheiro

"Sem burocracias bacocas, as notas eram depositadas nas mãos de lixa do Ti Zé. Dedo à boca, começava a contá-las."
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Por Victor Bandarra|27.11.16
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Já os bancos eram gavetas fiáveis para se guardar dinheirinho, ainda saloios à séria insistiam em disseminar as notas pelos buracos da adega e colchões de sumaúma. Nos anos 60, Ti Zé da Serra, lavrador de colete e barrete, acabou convencido pelo prospector bancário, filho do amigo Claudino, que era mais seguro depositar as notas no banco da vila.

"Está bem! Mas só confio em ti, ó rapaz!" Ti Zé ruminava impropérios aos senhoritos dos milhões, dos Melos aos Champalimaud, dos Magalhães aos Espírito Santo. Lá no fundo, nos seus oitentas, admirava a velha monarquia, do Duque de Lafões à Marquesa de Cadaval, sua vizinha. "Uma senhora fina e nada cagona!"

Mas, em desconfiança saloia, apanhava todas as semanas a camioneta, da aldeia até à vila, para uma visita ao banco do filho do Claudino. Tirava o barrete e chamava o bancário com o dedo. "É o costume, ó rapaz!" O rapaz indicava ao colega da caixa a soma certa do depósito. Sem burocracias bacocas, as notas eram depositadas nas mãos de lixa do Ti Zé. Dedo à boca, começava a contá-las. Finalmente, o aceno de cabeça. "Certinho! Podes voltar a guardá-las!"

Na altura, conhecia-se de olho e tacto a cor do dinheiro. Mas o Mundo pula e avança. Veio o 25 de Abril, partiram e voltaram banqueiros, saltaram Belmiros e Amorins, a CEE desembocou em dita União Europeia, inventaram-se negócios à medida, divulgaram-se cartões de débito e de crédito, a Internet expandiu-se, o Youtube pôs milhões a comunicar à distância e a esquecer o vizinho do lado.

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