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A tentação da carne

Victor Bandarra

A tentação da carne

D. Epifânia era uma senhora minhota, de fortes tradições e convicções. Uma senhora à antiga, crente e temente a Deus, não tanto à Igreja.
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Por Victor Bandarra|12.11.17
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Um dia, chamou o jovem pároco da freguesia onde nascera e intimou-o: "Ou dás o nome à criança ou tens de te haver com o arcebispo! E comigo!" O rapaz gaguejou, desculpou-se, mas acabou por confessar. "D. Epifânia, eu sou o pai da criança! Mas não quero deixar de ser padre. É a minha vocação!" O sacerdote teve de aceitar uma ideia de D. Epifânia. Discretamente, registou a criança como sua, longe, numa freguesia do Porto. Pai padre e mãe camponesa continuaram as suas vidas, na paz de Deus e dos homens. Antes de morrer, com todos os sacramentos, a velha senhora apelava à memória. "Se bem me lembro, só aqui no distrito conheço uns doze filhos de padres..."

Para a História ficou o célebre padre Costa de Trancoso que, lenda ou propaganda local, teve 299 filhos de 53 mulheres, no século XV. Sem tempo para longas missas, terá procriado com 29 afilhadas, 9 comadres, 7 amas e duas escravas. As más-línguas juraram então que até de mãe e irmãs teve filhos. Julgado aos 62 anos, foi o Padre Costa condenado (Torre do Tombo, armário 5, maço 7) a ser "degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas nos rabos de cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos". Prático e príncipe perfeito, el-rei D. João II acabou por perdoar o Padre Costa, a pretexto de que contribuiu para "o repovoamento de Trancoso", que andava parco de gente.

Este mês, na freguesia do Monte, na Madeira, o padre Giselo saltou para a fama por ter assumido publicamente a paternidade de uma menina, filha de uma ex-colega de escola. O bispo do Funchal sublinha que o padre "deverá assumir as responsabilidades inerentes à situação". O padre continua em funções, por muito que custe aos fiéis mais fundamentalistas do Monte. O bispo, cuidadoso, explica que "é preciso um discernimento, que é progressivo e pode ser um pouco lento". Marcelo ainda não comentou o caso.

A discussão sobre o celibato dos padres católicos tem enchido resmas de papel e gerado muito paleio. Para alguns historiadores, foi uma maneira inteligente de a Igreja antiga evitar perder posses e bens em disputas de heranças. Fazer filhos, ainda que padre e com     voto     de     castidade,     não     é     um     pecado mortal. D. Epifânia, sapiente, desfiava nomes     de   santos     e     garantia,     galhofeira,     que "para se ser santo não é preciso ser celibatário". Como quem diz, a tentação da carne não impede a santidade.

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