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Casamento luso-holandês no Verão do Minho

António Sousa Homem

Casamento luso-holandês no Verão do Minho

Há uns anos o meu sobrinho Pedro apresentou-nos Isabelle, a bióloga holandesa.
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Por António Sousa Homem|14.07.17
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O velhíssimo tio Sebastião homem parece ter morrido em 1635 numa escaramuça perto de Santa Cruz de Itamaracá, onde os holandeses instalaram o Forte de Oranje, nas praias do Pernambuco. Supõe-se, na família, que foi secretário e administrador do governador local, Matias Albuquerque, primo de um vice-rei das Índias e, na linguagem dos incunábulos, "valoroso militar" que se encarregou de colaborar na expulsão dos holandeses do Recife, depois de lhes incendiar os armazéns de açúcar em Olinda.

Julga-se que o tio Sebastião era um homem garboso que teria casado com uma prima em segundo grau de Diogo Bernardes, o vate de Ponte da Barca e prisioneiro de Alcácer-Quibir – para onde o rei Sebastião o arrastara em 1580 a fim de cantar a gesta militar –, excelente poeta que hoje já se não estuda, já se não lê e já se não comemora. Bernardes morreu trinta anos antes do tio Sebastião e não parecem que os seus destinos se tenham cruzado, nem em Ponte da Barca nem pelo caminho.

Tirando essa escaramuça com os Oranje e os Nassau, idos da Haia e de Roterdão para tomar aquela parte do velho império (de que resultou o passamento do tio Sebastião), as relações dos Homem com o reino da Holanda só se reataram há uma dúzia de anos quando o meu sobrinho Pedro apresentou à família uma jovem bióloga, Isabelle, holandesa da Frísia e da ilha de Ameland.

A princípio, a minha sobrinha Maria Luísa não gostou dela – Isabelle achava a água da praia de Moledo uma dependência dos trópicos (a Frísia é a Holanda mais gelada), considerava a esquerda portuguesa muito cómica embora menos ridícula do que a holandesa, levantava-se cedo para tomar o pequeno-almoço com este velho cronista à mesa da cozinha, a sua família era da minoria católica holandesa, e ambicionava vestir-se de mordoma nas festas da Senhora da Agonia.

Maria Luísa, embora não guarde ressentimentos, não resistiu à notícia, e murmurou que "lá vingamos o velho tio Sebastião". 
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