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Deslaço

Paulo Morais

Deslaço

Os suicídios entre os desempregados são já uma realidade quotidiana. 2013, annus horribilis.
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Por Paulo Morais|02.04.13
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Deslaço

A crise económica colocou milhões no limiar da sobrevivência. Em desespero, muitos adotam comportamentos menos sérios, que jamais teriam, não fosse a situação de aflição em que se encontram. Trabalhadores que sempre foram honestos, incapazes de cobrar uma despesa indevida, que nunca apresentariam um almoço a mais na sua empresa, inventam agora faturas numa tentativa de comporem o seu orçamento familiar. Empregados de cafés e tabacarias fingem enganar-se nos trocos e aproveitam a distração de clientes, que assim são alvo de confisco, sob a forma de gorjetas involuntárias. Quebram-se redes de confiança de anos entre concidadãos que partilham o dia a dia. Também entre empresas o ambiente se deteriorou. Empresários outrora ciosos dos seus compromissos atrasam pagamentos, por impossibilidade ou até por desleixo.

Os que não recebem não conseguem também pagar, numa cadeia infernal de incumprimento e desconfiança. Onde havia relações sólidas de negócios e amizade, chega agora a charlatanice. Dentro das organizações, o respeito mútuo desaparece. É já comum as entidades patronais baixarem unilateralmente salários e atrasarem pagamentos. Muitos dirigentes já nem sequer dão satisfações aos seus funcionários; estes já não sabem se e quando recebem aquilo a que têm direito. Esta praxis instala-se progressivamente, justificada pelo comportamento do próprio Estado, que reduz vencimentos e pensões, desrespeitando todos os compromissos. Porque não seguir--lhe o exemplo os patrões na privada? Desmotivados, os trabalhadores falham também as suas obrigações.

Com a crise, adveio a degradação ética nos negócios, acabou a moral nas empresas, diminuiu o respeito pelos trabalhadores. Mas também a vida familiar se corrompe. Com o aumento do desemprego e das dificuldades económicas, amplificam-se os conflitos. Cresce assustadoramente a violência doméstica. A inatividade gera vícios, o alcoolismo e a droga recrudescem. Os comportamentos pessoais, familiares e sociais adulteram-se.

Os suicídios entre os desempregados são já uma realidade quotidiana. 2013, annus horribilis. O ambiente empresarial é depressivo. A cadeia de confiança entre os cidadãos está a romper. As famílias desintegram-se. A rede social deslaçou.

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7 Comentários
  • De João23.04.13
    Sou um velho de setenta anos.Com tudo isto que se passa no nosso querido País.Dá-me vontade de chorar.
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  • De Olga02.04.13
    Quanto a famílias desintegrarem-se é sinal de que as famílias já eram desintegradas, pois nos momentos dificeis, numa família normal é nesses momentos que se une ainda mais. Foi o meu caso. E conseguimos.
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  • De Acanto02.04.13
    O que nos falta são mais Paulos Morais, estes é que metem medo aos corruptos e aos governos de compadrio e esbanjamento. Paulo Morais precisa ser apoiado, tem o meu total apoio mas é muito pouco precisa de todos nós.
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  • De manel02.04.13
    Alinhar pelo fado do desgraçadinho é fácil.Ajudar ,com soluções realistas ,é um pouco mais dificil Infelizmente ,cheios de discursos politicamente correctos, estamos cheios.
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  • De Artur Pereira02.04.13
    Noutra página deste jornal alguém propõe dificultar o acesso aos meios utilizados em suicídios,melhor fora que combatessem as causas.Seriedade de algumas empresas anda muito por baixo. Fui enganado 2 vezes recentemente.
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