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Elogio da contemplação e da caligrafia

António Sousa Homem

Elogio da contemplação e da caligrafia

"Escrever à mão é um arte conservada por velhos ou por adultos com temperamento de velho. É, portanto, uma velharia. Escrever à mão exige tempo – e devora-o sem sentimento de culpa."
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Por António Sousa Homem|27.11.16
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Já houve tempos em que escrever uma destas crónicas me ocupava duas ou três longas horas de transcendência. Menciono ‘transcendência’ por graça – no fundo, refiro-me apenas à contemplação do papel e ao uso da velha caneta Parker herdada do velho Doutor Homem, meu pai. Isso acontecia invariavelmente às segundas-feiras de manhã, depois do pequeno-almoço que Dona Elaine servia à mesa da cozinha: torradas, café de cevada e alguns comprimidos, antes receitados pelo meu antigo e bom médico de Viana do Castelo (uma dinastia de clínicos que cuidou de vários ramos da nossa família) e agora providenciados pela Dra. Teresa, a nossa médica e arboricultora de Venade.

A minha sobrinha Maria Luísa, que frequentemente transcreve os textos para o computador – uma relíquia moderna usada por quase todos os frequentadores deste eremitério de Moledo, excepto por mim –, achava que eu escrevia com lentidão (ela não conhecia o poder da preguiça do seu tio-avô), o que justificava certa perfeição da caligrafia.

Trata-se de um erro. Eu limitava-me a escrever conforme os padrões de um velho que se tornara cronista por vaidade; e a caligrafia é, ainda hoje, moderadamente inteligível porque fui criado na presunção de que se escreve para se ser compreendido. O velho Doutor Homem, meu pai, tinha uma escrita irrepreensível, quase desenhada, de um cursivo elegante – e sem arabescos nem rasuras; creio, aliás, que aquela caligrafia era uma extensão do seu guarda-roupa: pouco exuberante, destinado a durar bastante tempo e abotoado nos lugares certos.

Escrever à mão é uma arte conservada por velhos ou por adultos com temperamento de velho. É, portanto, uma velharia. Escrever à mão exige tempo – e devora-o sem sentimento de culpa. Exige papel. Exige tinta. E, finalmente, é um privilégio concedido a quem pode dispor de um lugar para observar a ordem das coisas: uma paisagem com declives e planaltos, um litoral cheio de enseadas e relevos.

Num mundo contaminado pelo pecado e pela virtude da velocidade, ou pelo sentimento de inutilidade da beleza, todos os que escrevem deviam regressar periodicamente à caligrafia para que pudessem recordar a extensão, a leveza ou a densidade de certas palavras. É nestas ocasiões que a dra. Fernanda telefona do jornal a fim de relembrar que estou atrasado no envio da crónica. Ela fá-lo com certa delicadeza. Vantagens da idade.

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