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Mas para quê ver futebol assim?

Eduardo Cintra Torres

Mas para quê ver futebol assim?

Há milhões de portugueses que, ou não querem saber, ou que apoiam as falcatruas desde que a favor do seu clube.
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Por Eduardo Cintra Torres|18.06.17
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Com o futebol-jogo nacional reduzido à Taça das Confederações, o futebol-palavras manteve-se em transe na vida portuguesa. O caso, agora, é grave. Tem mais drama e nós narrativos do que um folhetim de Camilo: há os emails, como foram obtidos, o fogo cruzado de acusações entre os três principais clubes e a reacção pífia das estruturas nacionais do futebol, sempre com medo, muito medo do que possa acontecer — não ao futebol, mas a si mesmas.

Os leitores conhecem os meandros do caso. Como obteve o FCP os emails? Através de hackers, como diz o SLB? Esperemos pela investigação judicial, daqui a 10 anos. Onde foram divulgados? No Porto Canal, pelo ‘director de comunicação’, cargo que é, em qualquer clube, de director de propaganda e contra-ataque. O mesmo director no SLB, Luís Bernardo, célebre chefe da imagem e propaganda de Sócrates, acusou o adversário de ter sido jornalista avençado; este negou. Que diz o DIAP sobre os emails, que prefiguram corrupção generalizada à volta da arbitragem? Que investigará. A par de casos anteriores, podemos esperar sentados. O SCP, entretanto, mete-se ao barulho e pede a anulação de taças do adversário lisboeta, ainda antes de investigação. O fogo cruzado passa a incluir o Sporting, que não podia ficar de fora deste campeonato da palavra.

O caso é grave, mas tenho de me proteger na ironia. Não ligo ao futebol dos clubes (só ligo à nossa querida Selecção) há mais de 30 anos, precisamente porque a corrupção já decidia jogos e títulos — e eu não queria ser enganado.

Infelizmente, há milhões de portugueses — ai! ,quantos me estarão a ler? — que ou não querem saber ou que apoiam as falcatruas desde que a favor do seu clube. Só esta questão me preocupa. O futebol tomou o lugar da religião no pior que ela teve no passado: o fanatismo, a violência verbal, a ausência de dúvida, dúvida que o próprio Jesus Cristo teve. Por ser religião laica organizada como negócio e com milhões de crentes, o futebol pode ser pasto para todas as falcatruas mas os poderes político, económico (empresas patrocinadoras), judicial e desportivo apenas fingem que se mexem para alterar o quadro geral infecto.

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