Sub-categorias

Notícia

O miguelismo antes da despedida de Verão

António Sousa Homem

O miguelismo antes da despedida de Verão

Para o Tio Alberto, o Miguelismo era uma fotografia que se guardava numa moldura.
  • 0
  • 0
Por António Sousa Homem|15.09.17
  • partilhe
  • 0
  • 0
Sábado foi uma espécie de despedida antecipada de Verão. O dr. Paulo, ex-leitor dos romances do conde Tolstoi, apareceu vindo de Roma, onde – no intervalo dos seus negócios – visitou uma lista de locais que a minha sobrinha Maria Luísa pacientemente lhe anotou por mensagem de telemóvel.

Não sei como é a Roma de hoje, mas sei que é uma das minhas cidades; o velho Doutor Homem, meu pai, e Dona Ester, minha mãe, foram fotografados por mim no terraço do Hotel d’Inghilterra, entre lilases e hibiscos, de onde se viam sombras matinais da Via del Corso e se aspirava aquele aroma de relíquia que paira sobre toda a cidade.

A fotografia está emoldurada sobre uma escrivaninha onde Maria Luísa equilibra a pilha dos livros "que há-de ler durante o Verão" e que depois são devolvidos às estantes ao longo do ano, sem melancolia mas com anotações em papelinhos que mais tarde hão-de ser lidos por arqueólogos deste eremitério de Moledo – se eles se interessarem pelo que é a mediocridade de uma velha família de antigos miguelistas rendidos à passagem do tempo.

O meu tio Alberto suspirava de desalento sempre que se falava deste mistério familiar, como se não se interessasse em saber como seria a pátria se os vencedores da guerra tivessem sido os Dragões comandados pelo marquês de Chaves (e conde de Amarante) e não as tropas do seu adversário, o conde de Vila Flor (e Duque da Terceira). E, na verdade, não se interessava muito. O tio Alberto, nosso bibliógrafo e gastrónomo de São Pedro de Arcos, era um aventureiro moderno cujo Verão terminava apenas em Outubro, quando regressava das suas viagens pela Europa – e se despedia de Svetlana Davydovna, que nos anais da família ficou conhecida como "a princesa russa", ao lado de quem queria ser sepultado em Genebra. Para ele, o miguelismo era uma fotografia que se guardava numa moldura, tal como a tia Benedita velava pelo retrato do Senhor Dom Miguel no velho casarão de Ponte de Lima.

De certa maneira, ele era um dos "últimos miguelistas" a norte do Cávado e seria boa companhia para as conversas crepusculares que o dr. Paulo gosta de prolongar até à hora de jantar, creio que para se vingar do mundo dos negócios, onde tudo é rápido e falho de recordação. Era um cavalheiro, portanto. Tinha uma discreta noção da beleza do mundo – e sabia que, talvez infelizmente, ninguém ia compreendê-lo. A minha sobrinha Maria Luísa censura-me sempre que eu digo isto.

pub

Ver todos os comentários
Para comentar tem de ser utilizador registado, se já é faça
Caso ainda não o seja, clique no link e registe-se em 30 segundos. Participe, a sua opinião é importante!

Subscrever newsletter

newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)