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Patrão da democracia

Luciano Amaral

Patrão da democracia

A democracia criou classe empresarial protegida, que só a crise recente ameaçou.
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Por Luciano Amaral|04.12.17
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Belmiro de Azevedo foi, tal como Américo Amorim (também recentemente falecido), o típico patrão da democracia portuguesa. Quando se fala do PREC de 1975, costuma notar-se apenas a destruição da classe empresarial criada durante o Estado Novo, como se fosse a única do país: Champalimaud, os Mello, os Espírito Santo… Mas esses eram os empresários ligados ao condicionamento industrial ou aos monopólios e oligopólios protegidos pelo Estado. Para além deles, havia um mundo de pequenos e médios empresários que queriam entrar nos grandes negócios e não conseguiam, porque o Estado não deixava. Era o caso de Amorim. Belmiro nem sequer era empresário antes do 25 de Abril, mas um gestor do pequeno grupo Pinto de Magalhães, de que fazia parte a Sonae.

Nos anos 70 e 80, com as grandes empresas monopolistas e os bancos na mão do Estado, pessoas como Amorim e Belmiro (que, entretanto, se havia tornado no maior proprietário da Sonae) viviam integradas no mundo concorrencial do mercado internacional, exportando para viver. Mas nos anos 90, com a privatização dos monopólios e oligopólios públicos, quiseram entrar nesse universo maravilhoso das rendas e dos mercados protegidos. Amorim conseguiu (banca, a Galp…), Belmiro fracassou em momentos decisivos: quando quis comprar o enorme BPA dos anos 80 e a PT do princípio do século XX. Das duas vezes, falhou porque não namorou bem o Estado (na forma do Governo do dia: Cavaco, Guterres e Sócrates).

Não conseguiu tanto como queria, mas ainda acabou bem instalado em mercados sem concorrência internacional e quase sem concorrência interna (centros comerciais, supermercados e telecomunicações). É a história económica da nossa democracia: da ousadia da exportação ao sossego do mercado interno. Como o Estado Novo, a democracia criou uma classe empresarial protegida, que só a crise recente ameaçou.
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