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Portugueses às cores

Victor Bandarra

Portugueses às cores

Viriato, pele escura, nasce na Amadora, de pais nascidos em bairro degradado de Oeiras, filhos de pais ‘badios’ da ilha cabo-verdiana de Santiago.
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Por Victor Bandarra|16.07.17
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Herda o nome de um bisavô boémio, estivador no porto do Mindelo, em S. Vicente. A mãe, sábia e visionária, concede sete filhos em escadinha ao marido, esforçado trolha pelos subúrbios lisboetas. Sempre grávida, sempre num virote entre as casas das senhoras que lhe pagam o trabalho-a-dias. Viriato cresce entre miúdos que falam   ‘crioulo   à   portuguesa’,   mas   nunca ninguém lhe ouve uma única palavra no doce linguajar cabo-verdiano. O rapazinho ostenta irrepreensível sotaque lisboeta, e assim sofre as agruras do gozo de amigos e colegas descendentes das gentes das ilhas. Viriato segue o caminho traçado pela mãe: faz o 12º ano, o único dos irmãos com direito a estudos. Inteligente e diligente, trabalha de dia num supermercado e frequenta curso nocturno em instituto superior. Os irmãos seguem os trilhos de tantos rapazes dos subúrbios - uns nas obras, outros na recolha ilegal de fundos e produtos. Viriato enceta namoro   com   Laura,   alentejana   morena   e pestanuda, que se derrete com o seu porte garboso e altivo. E tudo começa com uma piada   de   Viriato.   "Vocês,   mulheres   de cor..." Laura gagueja. "Eu?! Tu é que és de cor!" Viriato sorri. "Então vocês, brancos, não têm cor!?" Contra tudo e contra muitos, Viriato e Laura casam de papel passado. Laura, ignorante das Leis de Mendel, espanta-se com o primeiro filho: é alourado de olhos verdes. Viriato explica. "Sai ao meu bisavô Viriato! Era branquinho de cal!" Laura baralha-se. "Como é que sabes?" Paciente, Viriato vai explicando. "Era filho de um polaco e de uma crioula filha de português!" E solta gargalhada. "Lá em Cabo Verde, o pessoal é quase todo a preto-e-branco!"

Viriato cedo entende que, mais do que racistas, muitos dos seus compatriotas são ingénuos ou genuínos xenófobos - evitam ou renegam o diferente, o desconhecido; por medo,   ignorância   ou   preconceito.   Por exemplo, o português comum só consegue distinguir   três   sotaques   da   sua   Língua   - português de Portugal, português do Brasil e português dito "de preto", originário dos países africanos. Esta semana, Viriato preocupou-se: 18 polícias da Esquadra de Alfragide acusados à séria de terem agredido um grupo de jovens compatriotas de pele escura. "É histórico! Mas quem vai sofrer são os putos lá dos bairros..." Viriato, emocionado, decide então confessar-se à mulher. "Sabes porque é que não falo crioulo nem tenho   sotaque   cabo-verdiano?!"   Laura abana cabeça. "A minha mãe proibiu-me sempre de falar crioulo, e aos meus irmãos de   mo   ensinarem..."   Laura   espanta-se como nunca. "Só para me proteger! Explicava-me ela todos os dias: é mais fácil ser alguém na vida a falar português de Portugal do que a falar à preto..."

antiga ortografia

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