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Uma explicação da Páscoa aos contemporâneos

António Sousa Homem

Uma explicação da Páscoa aos contemporâneos

O meu sobrinho-neto enterneceu-se; seguiu-se a irmã, que quis ver mais quadros de Caravaggio.
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Por António Sousa Homem|21.04.17
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Fumar um charuto era uma tradição familiar para o almoço de Páscoa, que tinha lugar no casarão de Ponte de Lima (apenas a casa da Tia Henriqueta, em Vila Praia de Âncora, serviu para episodicamente reunir a família durante a quadra – e porque ninguém queria perder o cabrito com alecrim ou o arroz de pato), e que servia para interromper o ciclo religioso.

Depois do almoço, com o sol tímido ou a chuva intrometida no pátio de casa, já sob o primeiro aroma das roseiras de Santa Teresinha, o velho Doutor Homem, meu pai, sentava-se voltado para o jardim e fumava aquele charuto, contemplando a desordem da família, as corridas das crianças, as conversas junto do muro de granito e, finalmente, a chegada do entardecer que anunciava o regresso ao Porto e à vida civil.

Hoje, a Páscoa é vista como um fim-de-semana de viagens para o Algarve, uma espécie de Verão antecipado. Ela é, certamente, o apogeu da minha Primavera, a passagem de uma estação a quase outra – e a recordação do Domingo de Ramos (o mais belo dia que antecipa a Páscoa), em que esperávamos o anoitecer para a procissão se organizar.

Numa família em que não se discutia política, nem religião, nem a vida sentimental dos mais próximos, a Páscoa era – afinal – outros dos temas sem polémica. Católicos romanos ou reticentes (como era o caso do Tio Alberto), todos encaravam a Páscoa como uma paragem no tempo, ou para celebrar a ressurreição de Cristo, ou para lembrar os que atravessaram o deserto em busca da Terra Prometida, ou para garantir que éramos membros de uma família que não tinha desistido de existir apesar das contrariedades e da nossa tendência para o desmazelo.

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