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Uma lua-de-mel antecipada em Nova Iorque

António Sousa Homem

Uma lua-de-mel antecipada em Nova Iorque

Na Piazza Navona, em Roma, todo o amor parece eterno. Coisas de velho.
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Por António Sousa Homem|16.06.17
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Antigamente, as famílias registavam as viagens de ‘lua-de-mel’ em álbuns que ficavam esquecidos em estantes felizes, em mesas ou aparadores decorados com ‘naperons’, ou em gavetas que o tempo perfumava com doçura ou apenas naftalina.

A família tem algumas dessas primícias guardadas no arquivo geral das nossas memórias – incluindo as fotografias do casamento barroco e acidentado do Tio Manuel Lopes Homem, realizado no Lugo à revelia das conservatórias portuguesas pelo facto de ter roubado a noiva à porta de uma igreja dos Arcos, onde iria contrair um matrimónio infeliz e cordato com um desembargador de Braga, muito liberal e cheio de literatura e ‘plastron’.

A Tia Benedita sorria de cada vez que o velho Doutor Homem, meu pai, lembrava a cena e a travessia da fronteira do Gerês a caminho de uma abadia do Lugo onde o casal era aguardado por um prior que poderia ser personagem da ‘La Regenta’ (‘A Corregedora’) do zamorano Leopoldo Alas ‘Clarín’, que viria a morrer em Oviedo (de uma tuberculose intestinal) sem ganhar o gosto pelas ostras do Cantábrico. É um livro que hoje ninguém lê e eu posso citá-lo sem vergonha e sem correr o risco de excomunhão por ter na biblioteca um ateu, liberal e republicano. Ou seja, trata-se de um ‘Madame Bovary’ em espanhol, sem os arrebiques do francês.

O dr. Paulo, que ultimamente anda arredio, inverteu a lógica: partiu para a lua-de-mel em Nova Iorque antes do matrimónio. Desde que anunciei que, mesmo passando os noventa anos, já sei abrir um email no computador (uma oferta da minha sobrinha Maria Luísa com o argumento de que o dr. Fonte não gosta de decifrar a caligrafia das minhas crónicas), o dr. Paulo envia fotografias de Nova Iorque. A maior parte delas são fotos de clássicos italianos guardados nos museus novaiorquinos e eu sugeri-lhe que a viagem com a dra. Cristina devia ter sido a Roma ou Florença. O gestor ripostou, declarando que tudo está em Nova Iorque, onde o dinheiro propiciou uma boa colecção de pintura veneziana e uma boa galeria de santos e Cristos que imitam Caravaggio.

Talvez a dra. Cristina – o dr. Paulo apaixonou-se pela presciência jurídica da dra. Cristina tanto como pela sua arte na torta de laranja – não tenha paciência para entrar na igreja de São Luís dos Franceses, em Roma, uma igreja onde eu não teria casado, mas a dois passos da Piazza Navona, onde todo o amor parece eterno. Coisas de velho que o dr. Paulo há-de entender.

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