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ASSÉDIO MORAL AFECTA 180 MIL

À falta de melhor expressão, juristas, médicos do trabalho, psicólogos e psiquiatras referem-se a “assédio moral” para designar as condutas hostis – atribuição de tarefas humilhantes, recusa de comunicação, críticas sistemáticas e sem fundamento – que visam diminuir o funcionário, tornar-lhe a vida impossível e levá-lo, em último recurso, a despedir-se.
28.11.04
Mais de 180 mil portugueses consideram-se vítimas desta forma de assédio.
Como explicou ao CM a professora de Direito do Trabalho Maria do Rosário Palma Ramalho, ao contrário do avanço sexual, com base no género e legalmente tipificado, o assédio moral não encontra tradução na lei, mas que “existe, lá isso existe”. “O objectivo é incomodar tanto o trabalhador que ele acaba por ir-se embora”, precisou a docente, falando à margem do seminário ‘Assédio no Local de Trabalho’, que ontem decorreu na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.
O psicólogo Queiroz de Andrade socorreu-se de um estudo realizado no contexto da União Europeia (UE), em 2001, ainda a Quinze, para traduzir o fenómeno em números: “181 mil portugueses dizem-se vítimas de assédio moral no trabalho” e “entre cinco e dez por cento pensa que pode vir a sê-lo no futuro”.
O assédio moral é responsável pela diminuição em dois por cento da produtividade de cada trabalhador da UE e, segundo estima a Organização Internacional do Trabalho, traduz-se num prejuízo anual de 2,685 mil milhões de euros.
Os procedimentos hostis que configuram assédio moral são de ordem muito variada: privação de instrumentos de trabalho, como telefone ou caixa de correio electrónico, recusa de comunicação (de maneira a que a vítima se sinta invisível), não atribuição de tarefas, isolamento, violência verbal, física e sexual.
O professor da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa Telmo Baptista observou que tais condutas suscitam reacções ansiosas e depressivas, ruminações obsessivas e alterações na interacção familiar. O que fazer então? Desde logo, “aprender a lidar com os sentimentos de ameaça e diminuir a vulnerabilidade”, afirmou, aconselhando, igualmente, o recurso a apoio jurídico.
FORMAS DE ASSÉDIO: VERTICAL, ASCENDENTE, DESCENDENTE, HORIZONTAL E MISTO
DE CIMA PARA BAIXO
Maria, que trabalha numa linha de montagem de automóveis, consultou certo dia a médica da empresa queixando-se de dores de cabeça e abdominais. Não se referiu explicitamente ao facto de ser então a ‘vítima preferida’ da coordenadora. Esta dirigiu-se, a seguir, à médica do trabalho, para perguntar-lhe se Maria estava grávida. Insinuou que, caso a funcionária esperasse um bebé, era preciso encontrar motivos para despedi-la.
DE BAIXO PARA CIMA
O caso passou-se numa empresa de pequena dimensão. Uma das funcionárias não gostava do director, apelidado, pelas costas, de ignorante e incompetente. A trabalhadora solicitou uma entrevista com ele, durante a qual rasgou a roupa, gritou e arranhou-se, simulando ter sido vítima de um ataque sexual. “São casos menos frequentes, mas também acontecem”, afirmou a especialista em Medicina do Trabalho Cândida Soares.
'ESTOU NUM CANTO E NÃO FAÇO NADA'
Ana (nome fictício) tem 33 anos e trabalha nos serviços de uma autarquia da Grande Lisboa. Sempre foi considerada “boa trabalhadora, até um dia...”, conta ao CM, prosseguindo: “Vi-me sem nada para fazer e assim continuo há anos.” Ana tem apresentado atestados médicos sucessivos, pois, segundo afirma, sofre de depressão. Actualmente encontra-se de baixa. Sabe que tem de voltar ao trabalho e ser posta a “fazer nada”.
ACORDO SUPERIOR
Joana exercia funções de coordenadora, embora tal não fosse oficialmente reconhecido. A empresa na qual trabalhava admitiu uma nova funcionária que lhe disputava o cargo. Joana recorreu ao seu chefe directo, mas não encontrou o apoio desejado. A aversão dela ao trabalho passou a ser tão forte que vomitava antes de entrar na empresa. Um dia foi encontrada na rua sem saber onde estava nem quem era. Internaram-na.
ENTRE COLEGAS
João é licenciado, mas como não encontrou emprego adequado à sua formação académica, começou a trabalhar numa loja. A maior parte dos funcionários do estabelecimento apenas frequentou o ensino secundário. João veste-se de uma forma diferente, casual. Quando saem em grupo para o almoço, os colegas deixam-no sozinho. Chamam-lhe “lorde” ou “senhor doutor” e interrompem as conversas quando ele se aproxima.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
– O que é o assédio moral?
– Qualquer comportamento abusivo, que atente, pela sua repetição ou pela sua sistematização, contra a dignidade ou a integridade psíquica ou física de uma pessoa, pondo em perigo o seu emprego ou degradando o clima de trabalho.
– Os comportamentos descritos devem repetir-se quantas vezes para que constituam assédio moral?
– Considera-se, regra geral, que a conduta hostil se prolonga durante seis meses e ocorre uma vez por semana. No entanto, pode ser de tal forma grave que apenas uma ocorrência justifique a classificação de assédio moral.
– Os efeitos do assédio moral não podem ser confundidos com stresse?
– São com frequência. Muitas vezes, os trabalhadores não se apercebem imediatamente do fenómeno. Julgam tratar--se apenas de cansaço ou sobrecarga de trabalho. Contudo, no assédio moral existe uma intenção malévola.
– Quem são as vítimas mais comuns?
– Uma mulher num grupo de homens, um homem num grupo de mulheres, homossexuais, alguém que adoece, um funcionário que durante muitos anos foi considerado excelente e depois, porventura por excesso de trabalho, começa a faltar ou tem menos produtividade.
'SOU MAU'
O assédio moral leva o trabalhador a desenvolver visões negativas de si próprio – ‘Não valho nada’, ‘sou um mau trabalhador’, ‘sou má pessoa porque não correspondo ao que me é pedido’ –, do mundo e do futuro, afirmou o professor de Psicologia Telmo Baptista.
VITIMIZAÇÃO
Quem permite a primeira agressão e mostra ter sido muito afectado pessoalmente dá sinal ao agressor de que pode repetir a hostilidade. “Quebrar o ciclo da vitimização é muito importante”, alerta Telmo Baptista. “O trabalhador não deve percepcionar-se como vítima.”
ESTRATÉGIAS
O desenvolvimento da auto-afirmação e a preparação para o conflito contam--se entre as estratégias a adoptar pelas vítimas de assédio moral. Verifica-se que estas são reticentes na procura de apoio jurídico, pois entendem que assim entram em conflito aberto. Às vezes é preciso.

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1 Comentário
  • De Português descontente10.05.14
    Também sofri na Patinter (Mangualde) quando estava à experiência! Estava a gostar, apesar de ainda não estar a ganhar nada, até ao dia em que calhei com um motorista que me fez a vida negra durante a 3ª e última viagem.
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