Crianças hiperactivas sem diagnóstico

"Não conseguia estar muito tempo a ouvir o que a professora dizia na aula e por isso punha-me a falar com o colega do lado. Então ela chamava-me muitas vezes a atenção.” Bernardo, dez anos, conta como é ser uma das cerca de 50 mil crianças e adolescentes portugueses que sofrem de perturbação de hiperactividade e défice de atenção. A maioria não sabe que o é.
06.02.06
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Crianças hiperactivas sem diagnóstico
Os irmãos Bernardo e Ricardo são crianças hiperactivas e para eles é difícil estar quieto. 'Somos normais, só temos muita energia' Foto Sofia Costa
Hoje, Bernardo toma a medicação que o ajuda a andar mais calmo e a concentrar-se no que está a fazer. A mãe, Linda Serrão, também hiperactiva – aliás, como toda a família –, retrata o comportamento do filho. “Tem dificuldade em ouvir e prestar atenção, por exemplo, os recados ficam a meio e por isso tem de escrever tudo.”
O rendimento escolar acaba por ficar prejudicado, necessitando o Bernardo de aulas de estudo acompanhado. Tal como o irmão, Ricardo, 13 anos, que reprovou no ano passado, com sete negativas.
“É difícil prestar atenção ao professor, mas se a matéria for interessante então consigo concentrar-me, com alguma dificuldade”, diz o adolescente. Linda Serrão concorda e acrescenta que os filhos facilmente se “desligam” das coisas se não lhes desperta interesse.
NÃO HÁ ESPECIALISTAS
A perturbação da hiperactividade e défice de atenção (PHDA) foi diagnosticada ao Bernardo aos seis anos, enquanto o irmão Ricardo ficou a saber do seu caso há um ano. Também ele toma medicação adequada (ritalina).
Os dois filhos de Linda Serrão estão clinicamente controlados, mas muitas outras crianças não estão diagnosticadas. A crítica é apontada à falta de médicos especialistas. “Acabaram com a consulta de Pediatria na Unidade de Desenvolvimento no Hospital Santa Maria, dizem que por falta de médicos. Noutro hospital está-se dois anos e meio à espera de uma consulta de primeira vez, é escandaloso.”
APOIO ASSOCIATIVO
A Associação Portuguesa da Criança Hiperactiva, entidade onde Linda Serrão assume as funções de presidente, dá apoio a pais e formação a professores.
Uma das acções de sensibilização e formação de professores decorreu na Escola Básica 2,3 e Secundária D. Carlos I, em Sintra, mas o projecto ‘Estar atento é crescer melhor’ estende-se a outras escolas de Lisboa, Centro do País e Algarve.
CAUSA DE INSUCESSO ESCOLAR
A hiperactividade é considerada uma das causas para o elevado insucesso escolar, que actualmente se verifica nas escolas e contribui para a difícil integração social das crianças. Um dos sintomas mais importantes e comuns é o défice de atenção, que impede a criança de realizar uma tarefa até ao fim, seja ler um livro, ouvir alguém falar ou desempenhar outra actividade.
Não é o único sintoma. A impulsividade e a irrequietude são dois outros sinais que ajudam a identificar uma criança hiperactiva. Ana Rodrigues, docente universitária na Faculdade de Motricidade Humana e especialista em educação especial e reabilitação, também salienta a importância do diagnóstico correcto. “As crianças hiperactivas podem ter um, dois ou três sintomas característicos da perturbação neurológica, mas só um diagnóstico correctamente feito ajuda a identificar o problema.”
APONTAMENTOS
MEMÓRIA CURTA
A maioria das crianças hiperactivas tem muita dificuldade em recordar instruções e reter informação sequencial (por exemplo, tem dificuldade em recordar listas e confunde os passos para resolver problemas).
MÁ LEITURA
As crianças com perturbação de hiperactividade apresentam frequentemente problemas na leitura, ortografia, expressão escrita, matemática e linguagem oral.
AJUDAS
Os factores que ajudam a criança hiperactiva são um diagnóstico precoce, uma educação coerente, estabilidade familiar, adaptação e compreensão dos professores e a colaboração entre os pais e a escola.
Ana Rodrigues, Especialista em Educação Especial: “Não é um caso de má educação”
Correio da Manhã – A que sinais numa criança hiperactiva devem estar atentos pais e professores ?
Ana Rodrigues – Três sintomas que não devem ser confundidos com má educação ou mau comportamento: falta de atenção, impulsividade e irrequietude.
– Porque há crianças naturalmente irrequietas que não são hiperactivas?
– Exacto, é preciso fazer o diagnóstico correcto para identificar os casos.
– Como se diagnosticam?
– Não vale a pena fazer electroencefalogramas (EEG), nem tomografias ou ressonâncias magnéticas, porque estes exames não revelam resultados.
– Então como é que se consegue?
– O diagnóstico é feito a partir de um conjunto de critérios definidos e exclui o contexto familiar.

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