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Crónica: E agora falo de peixe com quem?

Açucena não está cá e eu já me sinto mais ignorante.
Por Edgardo Pacheco|11.02.18
Crónica: E agora falo de peixe com quem?

Quem gasta quatro quintos do seu tempo a pensar em comida acaba por criar rotinas. Se estou por Lisboa aos sábados, a minha consiste em passar pelo mercado do Campo Pequeno para comprar vegetais e receber lições do agricultor Marco Jerónimo e, depois, sendo boa a hora, dar um salto ao Mercado 31 de Janeiro para dar dois dedos de conversa com Açucena Veloso.

Na realidade, e por ser sábado, contento-me a espreitar uma banca que é um deslumbrante desfile de espécies de todos os mares deste planeta. A conversa propriamente dita fica sempre para a terça-feira seguinte. Nessa altura falamos da gordura delicada do peixe A, da capacidade de aguentar temperatura do peixe B, do sabor subtil do carapau da Costa da Caparica ou dessa coisa que eu aprecio e ela não que é o skrei (bacalhau fresco). Tudo isso no meio de gargalhadas, tiradas à peixeira e desabafos sobre os calotes de alguns proprietários de restaurantes (um modo de vida do sector).

Açucena não está cá e eu já me sinto mais ignorante. Onde quer que esteja,  imagino-a empertigada a dar lições sobre peixe a quem lhe passar à frente. Contudo, isso não reduz a tristeza que sinto por ter perdido uma amiga, ainda por cima nessa maldita praga nacional chamada sinistralidade rodoviária.

PS. Na Islândia existe uma instalação grotesca à saída de Reykjavik que junta dois carros destruídos em choque frontal. Propósito: no dia que a sinistralidade for zero deitam abaixo a instalação. Sabem quantas pessoas morrem por ano na Islândia? Entre 6 e 7.        

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