Eu teclo do Hospital Dona Estefânia, e tu?

O Bruno, de 7 anos, olhos negros, muito brilhantes no rosto pálido, foi operado. Ainda tem a perna direita imobilizada sobre a extensão da cadeira de rodas quando se aproxima do computador para jogar futebol com o Hélder, de 13 anos, também a curar-se de um ferimento numa perna. Os dois ‘entram’ no relvado, disputam a bola e “o tempo passa mais depressa”, contam os petizes, internados no Hospital Dona Estefânia.
20.12.04
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O acesso aos computadores – que as empresas Porto Editora e JP Sá Couto disponibilizaram, no âmbito da acção ‘Natal Mágico dos Hospitais’ – aligeira o quotidiano das crianças doentes, entretidas com os jogos, a enviar e receber ‘mails’ ou a conversar através do ‘Messenger’ (programa de troca de mensagens em tempo real) como faz a Patrícia, de 11 anos.
Ali onde a vêem, com do seu pijama cor-de-rosa, ‘fala’ todos os dias, através do ‘chat’, com a prima Cátia. “A minha prima conta-me as novidades, pergunta-me se estou melhor e eu digo-lhe o que se passa no Hospital”, revela, desviando o rato do computador com a mão magoada. Tem uma tala no dedo médio, mas usa o indicador para bater nas teclas. Assim compôs um texto dedicado à estagiária Sandra. “Eu sou a Patrícia e estou aqui para te dizer o quanto és importante para mim” é a primeira frase.
ISOLAMENTO MAIS SUPORTÁVEL
A Patrícia, o Bruno, o Hélder, a Sara e a Margarida deslocam-se à sala de actividades onde foi instalado o PC. O mesmo sucede em outros quatro serviços do Hospital Dona Estefânia. O sexto computador – portátil, com ‘webcam’ – foi conduzido ao quarto de um adolescente em isolamento na unidade de doenças infecto-contagiosas, há quatro meses. Só a mãe, devidamente protegida, pode entrar no quarto. Aos outros, o jovem vê-os através do vidro.
Não é fácil exprimir o que uma máquina com aquelas potencialidades significa para alguém em isolamento, mas a enfermeira Palmira Silva tenta: “Creio que tem ajudado este adolescente a manter a sanidade mental.” O pessoal do serviço ajuda instando-o a que faça pesquisas na internet sobre certas matérias.
Afastado do mundo, o jovem de 14 anos tenta reencontrá-lo através da tecnologia. Afirma sentir-se menos só no quarto onde as únicas presenças são as da mãe e dos médicos. O jovem conversa com os amigos e com a namorada. Todos esperam que o tempo não lhe custe por de mais a passar enquanto ali está.
DOENTES MAIS ALEGRES
“Quando chegam à sala de actividades, de manhã, o que procuram primeiro é o computador”, observa a educadora Isabel Santiago, capaz de identificar o que faz sorrir as crianças internadas no Hospital Dona Estefânia. “Os mais crescidos vão logo aos ‘mails’ ou enviar mensagens para os amigos. Também jogam, visitam ‘sites’ já conhecidos e ouvem música”, explica, adiantando que as crianças tinham pedido um computador para a sala. No passado dia 9 viram o desejo concretizado.
O acesso ao computador e à internet permite “suavizar o internamento”, sintetiza a educadora, sem esquecer os meninos oriundos de meios socioeconómicos mais desfavorecidos que ali têm oportunidade de utilizá-lo pela primeira vez.
Isabel Santiago lembra ainda a reacção de surpresa das crianças em internamentos sucessivos. “Quando voltam parecem encontrar um novo hospital.” A Margarida, que tem o cabelo todo em trancinhas, diz-nos ao ouvido: “Cheguei na terça-feira. É a terceira vez. Já cá estive antes.” Quanto ao computador, “ajuda a passar o tempo”. A Sara ainda não o usou, mas o entusiasmo dos outros começa a contagiá-la: “Vou fazer um jogo um dia destes.” Basta sentir-se um bocadinho mais animada.
PRENDA PROLONGA-SE ALÉM DA QUADRA
A iniciativa ‘Natal Mágico dos Hospitais’ abrange seis unidades pediátricas: Dona Estefânia, em Lisboa, S. João, no Porto, Centro Hospitalar de Vila Real/Peso da Régua, São Teotónio, em Viseu, Pediátrico de Coimbra e Distrital de Faro. A cada um deles, a Porto Editora e a JP Sá Couto emprestaram, até dia 9 de Fevereiro, cinco PC, uma ‘webcam’, um computador portátil e uma biblioteca multimédia (software educativo). Através do ‘site’ www.portoeditora.pt/natalmagico as crianças destes hospitais podem enviar mensagens umas às outras. Aliás, quem quiser saudar estes meninos pode fazer o mesmo.
Questionado sobre a possibilidade de deixar nos hospitais os meios emprestados, o porta-voz da Porto Editora, Paulo Gonçalves, afirmou ao CM estar neste momento a considerar-se “uma alternativa”.
“A alocação dos meios foi estudada apenas para este efeito, pelo que, para já, não é possível dizer que vão ficar nos hospitais, notou Paulo Gonçalves, referindo-se aos termos do protocolo firmado com as unidades contempladas. Mesmo assim, não é de excluir que uma parte desta prenda se prolongue para além da data prevista.

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