Idosos amarrados à cama

O alerta foi dado na noite de 27 de Fevereiro: um fogo urbano de pequenas dimensões, numa vivenda em Sassoeiros, Carcavelos. fez deslocar um carro de combate a incêndios e uma ambulância dos Bombeiros Voluntários de Carcavelos. A surpresa surgiu no local. O pedido foi feito a partir da Casa de Repouso Santo Expedito, mas o fogo era na vivenda ao lado, um anexo do lar.
14.03.07
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Idosos amarrados à cama
O cenário que encontraram no lar impressionou os bombeiros, que fotografaram as instalações Foto d.r.
“O fogo estava extinto mas havia três dependências fechadas”, conta o 2.º comandante João Antão. Como em qualquer incêncio, as instruções são claras: “Tem de ser tudo passado a pente fino e as portas são para abrir”, ordenou.
Incomodado, aponta para as fotografias tiradas na altura e acrescenta, depois de engolir em seco: “Encontrámos este cenário.” Nove pessoas estavam trancadas. “Quatro idosos num quarto, três noutro e mais dois noutro.”
A falta de higiene era chocante: “Havia fraldas sujas no chão, roupa amontoada e cadeiras de rodas lá pelo meio”, resume João Antão, ao mesmo tempo que sublinha: “As fotografias mostram que havia negligência e falta de higiene.”
Uma das idosas dormia numa cama rente ao chão, entalada entre as camas mais altas das companheiras de quarto, ao lado das fraldas usadas. Num outro quarto, dois idosos dormiam amarrados. Aos bombeiros, os responsáveis “disseram que as pessoas estavam agitadas e que não se podiam levantar porque podiam cair”. mas João Antão garante que “as camas eram normais, sem grades nem protecção”.
Quando recorda aquela madrugada, o 2.º comandante afirma que “se a situação tivesse sido mais grave, as coisas tinham-se complicado. “Podia ter sido uma tragédia.”
A Casa de Repouso Santo Expedito, no n.º 85 da Rua Alexandre Herculano, existe há sete anos. Já teve três donos, mas funcionou sempre sem alvará. O anexo aberto na casa ao lado, o n.º 87, é mais recente. Os nove idosos foram encaminhados para lares da Segurança Social.
Segundo Eunice Neto Fareid, advogada dos actuais donos, “a casa funcionava com um licenciamento pedido por dois anteriores proprietários, não autorizado”. “Até quinta-feira vai dar entrada a documentação necessária para que seja dado o alvará e para que a casa funcione em plenitude.”
A Segurança Social também já ordenou o fecho do lar, mas a advogada está a negociar a manutenção dos idosos até à legalização. “A Segurança Social deu um prazo que ainda não se esgotou”, diz.
Sobre o relato dos bombeiros, Eunice Neto Fareid, que foi chamada ao local no dia do incêndio, afirma que “não havia fraldas espalhadas” e que “usar a palavra amarrado é ignorância”. Sobre a idosa no chão, comenta: “A cama com gaveta não é utilizada para qualquer utilidade, isto é, não é usada para um idoso que sofre de artroses.”
PAGAM ENTRE 750 E 850 EUROS
Para mostrar que nada têm a esconder, os donos da Casa de Repouso Santo Expedito, autorizaram a advogada a abrir as portas aos jornalistas. Numa vivenda de dois pisos, só o rés-do-chão esteve acessível. À entrada está registado o horário de funcionamento, uma folha com contactos úteis e o preçário: 750 euros para idosos independentes e 850 para acamados. Segue-se um longo corredor que dá para um quarto.
À esquerda está a sala de convívio, com não mais do que oito pessoas. A decoração é simples: sofás antigos tapados a cobertas, uma televisão antiquada e, no canto, uma mesa de vidro junto à janela onde dois idosos conversam. No restante andar espreitam os quartos, a maioria interligados, e uma pequena casa de banho. As camas até têm grades, mas pouco diferem de uma mobília normal.
RECÇÕES
"TINHAM CONDIÇÕES" Eunice Neto Fareid | Advogada
“Os idosos tinham condições naquele anexo, ninguém foi obrigado e não havia fraldas espalhadas no quarto. Se houvesse, estariam para ser retiradas e levadas para um local próprio.”
"SÃO DEPÓSITOS" João Antão | 2º Comandante Bombeiros
“As pessoas estavam a dormir profundamente, era difícil fazer o resgate naquelas condições. Era uma habitação que estava a ser usada como apoio do outro lar. Estes pseudolares são depósitos.”
"FALTAVA COMIDA" Carla Alves | Ex-funcionária
“Estive cá seis meses, tempo suficiente para ver que não funcionava. Nunca vi um médico, havia só um enfermeiro que trazia os medicamentos do hospital. O esquentador esteve avariado e faltava comida.”
OUTROS CASOS
AMADORA
O lar O Bom Amigo, na Amadora, foi encerrado na última sexta-feira. Não tinha alvará nem condições de higiene. Das 18 pessoas retiradas pela Segurança Social, várias tinham feridas no corpo. Quatro deram entrada no Hospital Amadora Sintra, uma das quais permanece em coma.
FUNDÃO
Em Agosto de 2006, a Segurança Social encerrou um lar de idosos no Fundão. O espaço funcionava desde 2003, albergava 36 idosos, mas não tinha licenciamento. Com três andares, o lar tinha sido registado nas Finanças como Pensão-Restaurante Srª do Miradouro.
POCEIRÃO
Em Abril passado a Segurança Social actuou no lar da Lagoa dos Calvos, clandestino. Duas semanas antes, o proprietário tinha mantido sob sequestro uma idosa e os seus familiares.

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