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MODELAR VIDRO COM UM SOPRO

O gosto de mexer naquela massa incandescente que rapidamente ganha qualquer forma e cor ainda hoje dá prazer a Franklin Laranjo, de 53 anos, mestre vidreiro na Marinha Grande, que se iniciou na arte com apenas 12 anos.
08.06.03
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MODELAR VIDRO COM UM SOPRO
Franklin Laranjo, 53 anos Foto Francisco Pedro
Apesar da universalidade da técnica da moldagem e da modelagem de vidro, não está escrito em nenhum manual o segredo de colher a bola de vidro do forno, a uma temperatura de 1200 graus centígrados, nem de usar as ferramentas para fazer as peças, que só se conseguem trabalhar antes do vidro arrefecer.
Nesta profissão, o operário é sujeito a um trabalho violento, devido às altas temperaturas, e a aprendizagem "entra pelas unhas". Foi assim que Franklin Laranjo aprendeu e, como todos os outros, teve de demonstrar ser um bom aprendiz, para obter a promoção a 5.º ajudante, percorrendo um longo caminho até chegar a oficial e depois a mestre vidreiro.
"Não basta querer. Nesta profissão são precisos muitos anos para se chegar a oficial e quando eu comecei só se subia de escalão quando morria alguém", contou o mestre vidreiro.
Franklin Laranjo iniciou-se na arte assim que concluiu a quarta classe e foi para uma fábrica de vidro, a J. Ferreira Custódio, por ter sido "o primeiro emprego que apareceu". Ninguém na família estava ligado à profissão, mas a proximidade entre a sua residência, em Moinhos de Carvide, Leiria, e a Marinha Grande, onde proliferavam ofertas de trabalho nas fábricas de vidro, ditou-lhe o futuro.
O seu trabalho na vidreira limitava-se à moldagem de vidro. "A bola era colhida do forno na ponta da cana e o vidro soprava- -se dentro de moldes de garrafas, jarros e partes de candeeiros, como as tulipas e os pés", conta o mestre.
Na sua obragem houve dias em que os vidreiros fizeram mais de 600 - o recorde foi 625 - jarros de vidro durante um turno de seis horas e meia.
A passagem pela tropa obrigou a uma paragem de dois anos, após o que Franklin Laranjo retomou o seu posto de trabalho, até 1985, quando decidiu emigrar para a Suíça.
"Quando veio a crise - uma delas - fui à Suíça fazer uma prova, num estúdio e consegui obter o emprego, mas trabalhava-se com moldes e um dia, ao fim de 11 anos, tive de saber dizer basta e voltei para o meu País", recorda.
O mestre vidreiro trabalha há sete anos no estúdio Jasmim, na Marinha Grande, e lidera uma obragem (equipa) constituída por três operários. Aqui não há moldes e cada peça é única. Nas duas obragens não há peças iguais, embora semelhantes, por serem modeladas de forma artesanal.
A técnica é centenária mas ganhou na actualidade um novo conceito e dinâmica, fruto do aparecimento de novos 'designers', portugueses e estrangeiros.
No dia em que o CM visitou a Jasmim, Franklin Laranjo esteve a executar peças decorativas e artísticas a partir de um esboço em cerâmica de um 'designer' norte-americano. Noutras ocasiões levam apenas desenhos das peças que pretendem que sejam feitas.
"Um vidreiro nunca sabe a peça que lhe falta fazer e as ideias surgem a todo o momento, até durante o sono", adiantou o nosso interlocutor, confessando ser uma pessoa "muito exigente".
Apesar do carácter artístico deste trabalho, o mestre vidreiro não se considera um artista nem gosta da palavra. "Sou um operário e faço o meu trabalho sem tiques nem manias, mas com gosto e alegria" disse Franklin Laranjo, frisando: "quando deixar de sentir prazer mudo de vida". l
PAUSA ERA PARA EXPERIÊNCIAS
Quando trabalhava na fábrica de vidro, Franklin Laranjo aproveitava a pausa do almoço, de meia-hora, para experimentar peças novas: "Íamos à boca do forno colher vidro para fazer qualquer coisa". Aproveitava para fazer pequenas peças de artesanato, modeladas, como animais e flores, que ainda hoje faz, mas nessa altura era um desafio não ter de usar um molde.
A peça que mais o marcou, mas pela negativa, foi um urinol, pois queimou-se na cana quando o levava para o forno. "Eu era ajudante e o mestre, depois de soprar o vidro para o molde, mandou-me levar a peça para o forno. Como era pesada, segurei a cana mais à frente e queimei-me nas mãos. Assim que segurei a cana saltou-me logo a pele dos dedos", recorda.

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