Nunca mais dormi uma noite inteira

Parecia “um filme de terror. Entraram pela casa dentro, algemaram-me os filhos e prenderam-se na cozinha. Nunca mais consegui dormir uma noite inteira”. Deolinda Maria Gouveia, mãe de ‘Farfalha’ – o pivô da alegada rede de pedofilia envolvendo menores da Lagoa, que começa a ser julgada amanhã em Ponta Delgada – recorda, tintim por tintim, todos os passos do calvário que conduziram à detenção do seu Zé Augusto, a 13 de Novembro de 2003, no n.º 45 da Rua Formosa.
13.03.05
Nunca mais dormi uma noite inteira
A mãe de ‘Farfalha’ acredita na inocência do seu Zé Augusto, mas vai dizendo 'seja o que Deus quiser' Foto Sérgio Lemos
“Eram quinze polícias. Bateram à porta, com força, faltava um quarto para as sete. Pensava que era a vizinha. Quando abri, entraram sem pedir licença, remexeram tudo, levantaram tudo, igualzinho ao que se vê nos filmes. Só saíram já passava da uma”, conta a matriarca da família Pavão. “A um dos meus filhos, doente, encostaram-lhe uma arma à cabeça na cama. E quando pedi para ir à casa de banho, estava aflita, acompanharam-me lá dentro. Nunca me senti tão envergonhada”, diz.
Sob os ombros de ‘Farfalha’ recai a acusação de ter cometido um total de 50 crimes, 28 dos quais de abuso sexual de criança. Os restantes repartem-se entre actos homossexuais com adolescentes, exibicionismo, violação e abuxo sexual de menores.
A mãe continua a acreditar na inocência do filho, embora reconheça não fazer a menor ideia do que se passava na garagem, situada nas traseiras da casa, onde alegadamente se juntavam crianças pobres de S. Miguel e adultos endinheirados em ‘festas privadas’. “Ele é que tinha a chave da garagem. Mas se era ali que queriam procurar – sei lá o quê! –, que o fizessem. Deixavam era a casa em paz”, desabafa.
Desde que se encontra preso preventivamente em Ponta Delgada, Deolinda só por uma vez viu o filho, na altura do Natal. “Tem ligado muito para casa. Está desesperado, não vê a hora de se livrar das acusações, desta má-língua que o atirou para a cadeia. Veja lá, era um rapaz que não fumava e agora, aos 39 anos, começou a pegar no cigarro.”
A prisão de ‘Farfalha’ destruiu a família Pavão. Um dos três filhos que vivem com Deolinda foi forçado a despedir-se e os outros não arranjam trabalho. “Vivemos da minha reforma e de um subsídio de desemprego. É pouco, mas tem que dar. Comecei a trabalhar aos 12 anos e criei nove filhos. Não há, não há. Vive-se com o que se tem. Não encontra nenhum vizinho que diga mal da Deolinda. Pelo contrário, têm pena de mim, do que sofro. E eu sinto-me envergonhada com isto, já nem vou à rua.”
Quanto ao resultado do julgamento que amanhã se inicia, Deolinda está confiante que o seu Zé Augusto sairá em liberdade, mas deixa a decisão para a justiça divina: “Há-de ser o que Deus quiser”.
FILHO NÃO QUER VER
O filho de um outro arguido neste processo – cujo pai vai responder por 10 crimes de abuso sexual de criança, actos sexuais com adolescentes e actos homossexuais com adolescentes, também acredita na inocência do progenitor e dá “graças a Deus”, pelo arranque do julgamento. A família perdeu o chefe e quer que o “pesadelo” termine o mais rapidamente possível.
“O pior está ultrapassado, mas não é como era dantes. Vivemos com algumas dificuldades, falta um ordenado cá em casa, mas estamos a aguentar-nos bem.” Ao contrário da mãe de ‘Farfalha’, este jovem – que pediu o anonimato – não faz questão de ir amanhã ao tribunal.
UM MANTO DE SILÊNCIO
O padre fugiu como o ‘diabo da cruz’ quando ouviu falar em ‘Farfalha’. Desligou o telefone, nem deu tempo a perguntar-lhe o nome, nem o que pretendíamos. “Não dou entrevistas, não dou entrevistas” e acabou a conversa. Um pouco a exemplo de uma vizinha da D. Deolinda.
Estava à janela, sorriu quando nos viu, informou-nos onde era a casa que procurávamos e... mais nada. Quando questionada sobre se o conhecia, se o costumava ver, meteu-se para dentro. “Não tenho nada a ver com isso”, repetiu, enquanto fechava a janela. E há ainda o motorista que nos indica onde se localiza a célebre garagem do ‘Farfalha’: “Vire à direita, corte à esquerda, vá por ali, por além, é um beco sem saída, é uma casa cor-de-rosa, tem ao lado um portão verde.” Tudo correcto. Mas sempre vai dizendo: “Sei, porque vi na televisão. Nunca tive nada a ver com aquilo, nunca lá estive. É só de ouvir e ver na TV”.
PSP ADOPTA TOTAL DISCRIÇÃO
Com o aproximar do julgamento, volta à memória o caso que abalou a Ilha de São Miguel, Açores. Feridas que vão levar muito tempo a sarar. A PSP de Ponta Delgada quer que o início do julgamento da rede de pedofilia em S. Miguel decorra “sem grande aparato”, de forma a não perturbar “minimamante” o quotidiano da capital açoriana. Exactamente por isso é que “a operação de segurança está montada de forma a garantir total discrição.
“Quanto menos publicidade melhor”, afirmou ao CM o subintendente António Castro. “Em princípio, não haverá ruas cortadas ao trânsito e também pensamos que não será necessário colocar barreiras em frente ao tribunal, a menos que seja estritamente necessário”, sublinhou o esponsável pela Polícia de Ponta Delgada.
Habituado a situações de ‘alto risco’, nomeadamente quando esteve ao serviço em Setúbal, o subintendente António Castro acredita que “não acontecerá nada de anormal”, afastando por completo o cenário aparatoso que marcou o arranque do julgamento do processo de pedofilia na Casa Pia. “Naturalmente que estamos preparados para toda e qualquer eventualidade, mas acredito que tudo decorrerá tranquilamente. É esse o nosso grande objectivo”, concluiu.

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