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“Vou levar-te comigo”

As provocações eram frequentes entre o casal residente em Vila Seca, Barcelos. Quando Isabel Martins, 53 anos, ficava farta de ser agredida, verbal e fisicamente, pelo marido, Joaquim dos Santos, 56 anos, costumava gritar-lhe: "Nunca mais morres!" Aquele respondia de pronto: "Quando morrer, vou levar-te comigo."
19.09.10
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“Vou levar-te comigo”
O casal foi encontrado morto em casa pelo filho mais novo. Ninguém se terá apercebido dos tiros. Joaquim disparou contra Isabel, que estava na cama, e, depois, foi para o sofá da cozinha e deu um tiro na cabeça. Os cadáveres foram levados pelos Bombeiros Foto Nuno Fernandes Veiga

Ontem, cumpriu a promessa. Disparou contra a mulher e, depois, suicidou-se com a mesma pistola.

Os corpos foram descobertos na residência do casal, por volta das 08h30, pelo filho mais novo, que tinha combinado um passeio com a mãe. Quando o homem viu a mãe, falecida na cama, e o pai, já sem vida, sentado no sofá da cozinha, e ainda com a pistola na mão, ficou em choque. "Chegou aqui a gritar que a mãe estava morta e que o pai tinha matado a mãe", contou ao CM a prima e vizinha de Joaquim, Emília Santos.

O historial de violência entre o casal, ambos desempregados, era conhecido por todos. "Os dois filhos, desde pequenos, viam agressões à mãe", lamentou Emília. Enquanto o homicida é descrito como agressivo, a mulher era tida como uma pessoa calma.

Há cerca de dois meses, Isabel apresentou queixa na GNR de Barcelos por violência doméstica e pelo facto de o marido ter uma arma. Os militares apreenderam a caçadeira a Joaquim, mas este logo arranjou outra arma ilegal. Foi com a pistola adaptada que efectuou os disparos fatais. Primeiro na esposa, depois, com um tiro na própria cabeça. 

CRIME NÃO CHOCOU POPULARES

A notícia não deixou a família e os vizinhos surpreendidos, uma vez que todos conheciam a relação conflituosa do casal. "Havia sempre brigas e portas a bater. Ela vinha pedir ajuda, mas depois dizia que já não era nada e ia ter com ele. Chegou a andar muito pisadinha", conta a familiar Emília Santos.

"Ele sempre disse que quando fosse a levava também, e assim foi", acrescentou também a vizinha Maria do Céu. Ontem, vários populares acorreram à residência do casal, onde os filhos e as noras das vítimas estavam com as autoridades. Os três cães do casal foram levados para um canil municipal, num dia em que a casa ficou para sempre vazia.

CUMPRIA PENA POR DESACATOS

O registo criminal de Joaquim revela o seu carácter violento. Além de ter sido acusado pela esposa de violência doméstica e de ter uma arma ilegal, o homem tinha problemas com a autoridade.

Recentemente, foi fiscalizado por conduzir sob o efeito de álcool e, como consequência, foi-lhe retirada a carta de condução. Há cerca de um mês, voltou a conduzir e, quando foi apanhado pela GNR, ofereceu resistência física. Foi detido por desacatos e desobediência e condenado a uma pena por dias livres. Joaquim ia sempre aos fins--de-semana para o Estabelecimento Prisional de Guimarães, onde ficava preso.

DISCURSO DIRECTO

"É O CASO TÍPICO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA": Carlos Poiares, Psicólogo Criminal

Correio da Manhã – O que leva um homem a matar a mulher?

Carlos Poiares – É um caso típico de violência doméstica, que não teve acompanhamento necessário. Agora, só com uma autópsia psicológica é que poderemos saber os motivos, mas a violência acontece depois de um conjunto de tensões no casal.

– Porquê suicidar-se depois de um homicídio?

– O suicídio pode representar uma forma de pôr um ponto final no casal ou revelar uma incapacidade de lidar com a culpa e com a responsabilidade pelo homicídio.

– Existem formas de prever este tipo de desfecho num casal disfuncional?

– Só com um acompanhamento psicológico, que surge logo a seguir aos primeiros sinais, é que se podem detectar situações de extrema gravidade, que podem terminar em mortes violentas, como foi o caso.

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